Novo livro do Iepé conta a história do senhor Geraldo Lod, o indígena da Guiana Francesa que fundou uma aldeia no Brasil

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Entrevistamos a antropóloga Lux Vidal, organizadora do livro, para saber mais sobre a história de um homem à frente do seu tempo

Texto: João Bourroul

Lux Vidal estica o braço e revela os calos na palma da mão com o orgulho de quem mostra uma medalha. A antropóloga de 93 anos nunca usou um computador. Foi com essas mãos que ela registrou as conversas com Geraldo Lod, chefe indígena Galibi Kali´na com uma história de vida que, de tão fantástica, parece ficção. Lux também nunca usou um gravador. “É que eu escrevo rápido”, diz ela. Isso significa que as conversas com Geraldo eram só conversas, sem a artificial intermediação de um gravador. 

“De noite, quando todo mundo ia dormir, eu ficava com uma velinha acesa, sentava e registrava tudo que tinha acontecido durante o dia”, relembra a professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP) e ex-presidente do Iepé. 

Imagem sem data de Seu Geraldo e sua canoa no Rio Oiapoque

Foi assim – à luz de velas e de próprio punho – que ela organizou o livro Narrativas e Memória de um Chefe Galibi do Oiapoque. A obra acaba de ser publicada pelo Iepé e o lançamento oficial aconteceu no dia 22 de julho, no Empório Uasei, em Oiapoque-AP e contou com a participação de membros do povo Kali´na, moradores da aldeia Galibi e familiares de Seu Geraldo. 

Em 1950, Gérard Lod (que no Brasil virou Seu Geraldo) saiu de Maná, na Guiana Francesa, com familiares, em três canoas, e atravessou até o lado brasileiro do rio Oiapoque. Colocado assim, em poucas palavras, pode parecer que a jornada foi tão simples quanto ir de uma margem à outra de um rio. Mas Geraldo estava mudando de cidade, de país, de realidade – e, de certa forma, fundando também sua própria realidade.  

Assim que chegou, estabeleceu aqui a primeira comunidade Galibi Kali´na no Brasil. Um pioneiro, o seu Geraldo. Não há consenso entre as motivações que o fizeram vir para o lado de cá do rio Oiapoque. Há quem diga que foi um desentendimento familiar. Há quem diga que ele queria conhecer o “país dos verdadeiros índios”, como um professor francês havia lhe dito na escola. 

Geraldo Lod em sua roça (Foto: Acervo Lux Vidal)

Os nomes das pessoas da família de Geraldo revelam a miscelânea cultural típica das regiões de fronteira: Emilien Joseph Corneille, Gilberta, Marie Egyptienne, Pedro Brasil, Thérèse, Alexandra. Geraldo talvez seja essa miscelânea encarnada. 

O livro é um grande depoimento em primeira pessoa, o que deixa a leitura mais fluida e cria no leitor uma sensação de intimidade, como se ele próprio fosse um amigo de Geraldo, conversando com ele à sombra de um jambuzeiro e ouvindo saborosas histórias dos antigos, como: “Após um eclipse, antigamente, os velhos levavam as crianças à beira do rio e as lavavam na lama para limpar o sangue caído da lua. O meu avô pegava uma taça de champanhe, de haste longa, e olhava para a lua através dela, ele dizia que desse modo ele via as pessoas que andavam de lá para cá”. 

Lux em seu apartamento, com o livro que organizou sobre Geraldo (Foto: João Bourroul)

Fomos até o apartamento de Lux, em São Paulo (SP), para conversar com ela sobre esse homem único chamado Geraldo. Um autodidata, persistente e estudioso, fascinado tanto pela ciência quanto pelos mistérios que ela não é capaz de resolver.

Confira os principais trechos da entrevista com Lux: 

O que mais te encantou no Oiapoque? Quais são as peculiaridades que te atraíram nesse lugar? 

Eu tive duas fases nas minhas viagens de trabalho com os indígenas. A primeira fase foi com os Kaiapó-Xikrin. Eles sofreram um grande abalo demográfico no primeiro contato que tiveram com os não-indígenas. Eles eram muito poucos, chegaram a ficar em menos de 100 pessoas, estavam quase em extinção. Então quando eu cheguei lá eles tinham pouco contato externo, era uma sociedade autocontida. 

Agora, o meu segundo campo, no Oiapoque, foi muito diferente. De repente, eu estou num sistema aberto, você entende? Aberto e misturado. Lá são povos misturados, historicamente constituídos. Eles mesmos dizem: o nosso sistema é um sistema misturado.  

E tem outra coisa também: como eu me ocupei da demarcação da terra dos Xikrin, lá eu era assim, digamos, uma personagem. E quando cheguei no Oiapoque eu não era mais “alguém”.

Lá eu era simplesmente uma pessoa a mais entre centenas de outras pessoas. Isso me agradou muito. 

Você lembra como foi seu primeiro contato com o Geraldo Lod? 

Quando fui lá  pela primeira vez ele me recebeu de uma maneira um pouco, digamos, superficial. Ele começou a nos contar algumas histórias, como a da mula sem cabeça, coisas que são regionais, mas que não tinham nada a ver com os Galibi Kali´na.   Então, na verdade, era uma pessoa amável, mas que não queria se revelar.

Naquele momento ele era um homem acolhedor, mas bem cuidadoso. Isso foi em 1990. 

Ele só começou a falar comigo quando passou a ter confiança, em 1995. Foi um momento em que ele teve vontade de contar, de botar para fora quem eles eram, como eles eram, como era a vida dos antigos.  

Quais características do Geraldo mais chamavam sua atenção? 

Todas, absolutamente todas. Ele era um intelectual. O Geraldo era um pensador. E ele sabia muito bem manejar a conversa, escolhia muito bem suas palavras. Então, ele era um bom contador de histórias. Além de ser extremamente inteligente. Ele lia muito. Almanaque Abril, Globo Ciência… o Geraldo gostava muito de ler as revistas de ciência e sempre se maravilhava com as descobertas. Mas ele também pensava que a ciência não explica tudo. 

O que você pode dizer sobre a relação dos Galibis Kali’na com o catolicismo?   

O que está no livro é o que ele pensa, não quer dizer que toda a coletividade pensa do mesmo jeito, né? Isso é importante. Para o Seu Geraldo, o catolicismo fazia parte da cosmologia indígena. 

Alguns séculos atrás os jesuítas estiveram na Guiana Francesa. E catequizaram eles muito bem catequizados – uma catequização muito bem apurada, digamos assim.  

Bom, depois os jesuítas foram postos para fora. Mas o Geraldo disse que eles continuaram a transmitir entre eles o que tinham aprendido dos jesuítas. Faziam uma roda e falavam sobre tudo o que eles tinham aprendido.  

E quando, mais tarde, já no século XIX, século XX, vieram os novos missionários que iam catequizá-los, eles falaram: não, tudo isso nós já sabemos, vocês não estão nos ensinando nada. Os novos missionários ficaram assim, meio espantados de ver até que ponto eles conheciam toda a liturgia da religião católica.   

Dá para dizer que Geraldo Lod é um católico politeísta? 

Sim. 

Ele sempre dizia: primeiro vem Deus, depois vem a maráka.  É como dizer, primeiro vem Deus e depois vem todas as nossas tradições. 

Por que você optou que o livro fosse um grande depoimento? Uma grande aspas do Geraldo? 

Isso é o mais importante do livro: não sou eu falando e revela a evolução, as novas práticas da antropologia. Cada vez mais são os próprios indígenas que falam, não somos mais nós. 

Hoje em dia eles não precisam mais do antropólogo, eles falam por eles mesmos. Agora, eu acho que o antropólogo tem também sua maneira de ver, de interpretar. Uma coisa não precisa excluir a outra, né?

Cenas de uma vida

Pedimos para Lux comentar algumas fotos do livro que mais marcaram suas memórias com os Galibi da aldeia São José.

A aldeia sempre muito limpa. A questão da pureza é muito importante para eles. Por isso as casas são tão limpas. Eles limpam o peixe com limão, com sal, com ervas. A carne também é muito lavada. E o corpo… eles sempre tomam banho três vezes por dia. Essa questão da pureza é absolutamente fundamental. O nosso corpo é apenas uma camisa, uma carcaça. (Foto: Acervo Lux Vidal)

O senhor Geraldo Lod e madame Carolina, a mulher dele, debaixo do jambuzeiro. Quando ele perde as flores, se forma esse tapete. (Foto: Acervo Lux Vidal)

Essa é a cozinha. É aqui que eles torram a farinha, aqui que eles vivem. É a casa de farinha, mas é também a casa de convívio. (Fototo: Acervo Lux Vidal)

Aqui é a Santa Karipuna. Ela era filha da dona Xandoca do Espírito Santo. Uma mulher muito importante. Ela faz as galettes, esses beijús. 
Eles conservam esses beijús em grandes tambores, às vezes no meio da farinha. Isso deixa as galettes conservadas por um ano ou até mais. Depois, quando você vai comer, você tem que molhar na sopa ou no caldo de peixe, ou no caldo de carne. (Foto: Acervo Lux Vidal)

Aqui é a celebração da festa dos 50 anos da chegada dos Galibi Kali´na ao Brasil. Eles chegaram em 1950, então essa foto é de 2000. Eles fizeram uma grande festa e convidaram o Bispo de Macapá. (Foto: Acervo Lux Vidal)

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