“Conversas da Amazônia”: uma semana de intercâmbio internacional entre povos indígenas 

data

O que pode surgir quando povos indígenas de 5 países diferentes se encontram em plena Floresta Amazônica pra trocar experiências? Fomos até a Colômbia pra descobrir

Texto: João Bourroul

Indígenas equatorianos registrando suas impressões sobre o artesanato Wajãpi (foto: João Bourroul/Iepé)

O local não poderia ser mais apropriado. Cravada na tríplice fronteira Colômbia-Brasil-Peru, o município de Leticia era o ponto mais equidistante (o famoso “meio de caminho”) pras 17 delegações indígenas de cinco países diferentes que se reuniram pra trocar experiências amazônicas durante uma semana. Quando o assunto é Amazônia, “meio do caminho” é modo de dizer: Japukuriwa Wajãpi e Kamoju Wajãpi atravessaram 9 mil km pra sair do Amapá e chegar até lá.    

Realizado entre os dias 13 e 18 de agosto, o tema do III Encontro Conversas da Amazônia era “Economias Locais”. Indígenas do Brasil, Colômbia, Peru, Equador e Venezuela foram até Leticia apresentar os produtos e serviços que vêm desenvolvendo em seus territórios. O denominador comum entre eles? A Floresta Amazônica, a mesma floresta amazônica que permeia toda a Reserva Natural Habitat Sul, espaço que recebeu o evento.

Cacau, açaí, mandioca. Garimpeiros, violência, colapso climático. Apesar das delegações indígenas virem de regiões diferentes, a potência de seus saberes são parecidas – assim como as ameaças a que estão submetidas.  

Um mapa mostrava de onde cada delegação saiu para chegar até o Encontro (foto: João Bourroul/Iepé)

Artesanato Wajãpi e Açaí do Oiapoque

O Instituto Iepé levou duas delegações. Os Wajãpi Japukuriwa e Kamoju foram falar de seu Fundo de Artesanato. A arte Kusiwa dos Wajãpi é considerada patrimônio cultural do Brasil pelo IPHAN e patrimônio oral e imaterial da Humanidade pela Unesco. A beleza das peneiras, tipoias e tipitis chamaram tanto a atenção dos participantes do evento quanto o modelo de negócios adotado pelos Wajãpi, que destinam 10% de todas as vendas pro fundo, pra uso coletivo. 

“O fundo de artesanato está beneficiando 1.800 pessoas da população Wajãpi. A ideia do Fundo de Artesanato é ajudar a comunidade e passar esse conhecimento pros jovens, pra que eles não precisem ir até a cidade procurar emprego”, afirma Kamoju. 

Kamoju apresenta o Fundo de Artesanato Wajãpi para os participantes do Encontro (foto: João Bourroul/Iepé)

Já a delegação do Oiapoque-AP levou em sua bagagem o seu famoso açaí liofilizado. Se os colombianos, peruanos, venezuelanos e equatorianos se encantaram com o açaí do Amapá, o efeito reverso também aconteceu: Tairene Karipuna se surpreendeu com o trabalho que os equatorianos fazem com o bambu.

Ikhani recebeu de presente o açaí do Oiapoque das mãos de Diese Palikur e Tairene Karipuna, que experimentaram o açaí produzido pela colombiana (foto: João Bourroul/Iepé)

“Nós também temos muito bambu na nossa região. Usamos uns bem pequenininhos pra fazer flauta e dançar o Turé. No Equador eles usam bambus pra construir casas e móveis.  A gente até perguntou como eles faziam pra manter o bambu conservado, pra que não estragasse rápido. Foi uma troca muito interessante e eu pretendo levar esse conhecimento de volta pra casa”.  

Economias amazônicas locais: uma história viva

Com o auxílio de uma equipe de tradução simultânea, os participantes passavam o dia trocando experiências em em mesas temáticas e, ao longo da semana, pouco a pouco montavam seus stands pra exibir seu trabalho e seus produtos.

Stands de produtos e serviços das delegações indígenas durante o Encontro (foto: João Bourroul/Iepé)

“Aproveitamento Sustentável de Castanha” em Madre de Dios, no Peru. “Sistema Agroflorestal Alimentário Ancestral”, em Pastaza, no Equador. “Produção de Pimenta das Mulheres” de Pirá Paraná, na Colômbia.  “Fundo de Desenvolvimento Comunitário”, da Venezuela. A variedade e complexidade de iniciativas mostra um pouco da força do continente sulamericano e da floresta amazônica. 

As rodas de conversa do Encontro aconteciam em uma reserva dentro da Floresta Amazônica (foto: João Bourroul/Iepé)

No segundo dia do Encontro, estávamos andando pela Floresta amazônica quando o guia parou pra mostrar uma planta: o nome dela é ajosacha, ele disse. Imediatamente, os indígenas do Oiapoque reconheceram a planta. “Isso é cipó d´alho!”. O guia então disse que essa é uma planta medicinal e passou a enumerar os males que ela combate: febre, vômito, dor de cabeça. No auge da pandemia, a ajosacha foi muito usada pra amenizar os sintomas da covid. 

Os Galibi usam essa planta pra combater os mesmíssimos males e usam a planta da mesma forma (como chá ou como banho) mas, pra surpresa deles, os indígenas da região não conhecem os propósitos culinários da planta medicinal. Bem, não conheciam. Com ajuda de um tradutor, Tairene explicou que cipó d´alho com tucupi é uma delícia. 

O III Encontro Regional Intercâmbios de Conhecimento “Conversas da Amazônia” foi organizado pela ANA (Aliança Norte Amazônica), por sua secretaria executiva Fundação Gaia Amazonas e financiado pelos projetos Green Livelihoods Alliance: Forests for a Just Future (Voor veranderaars – Milieudefensie) e TerrIndigena – AFD (Agência Francesa de Desenvolvimento) e FFEM (French Facility for Global Environment).

Mais
notícias