Indígenas do Amapá e norte do Pará ampliam debate sobre direitos territoriais em evento científico 

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Com apoio do Iepé, XIII Congresso Brasileiro de Direito Socioambiental fortaleceu a participação de lideranças indígenas em conversas sobre consulta prévia, mineração, petróleo e proteção dos territórios

Texto: Maria Silveira

Evento reuniu juristas, lideranças indígenas, representantes de comunidades quilombolas, pesquisadores e representantes de organizações da sociedade civil em Macapá (Foto: equipe Iepé)

O Instituto Iepé apoiou, entre os dias 23 e 26 de junho, a realização do XIII Congresso Brasileiro de Direito Socioambiental, em sua primeira edição realizada na Amazônia, juntamente com o VI Encontro do Observatório de Protocolos Comunitários de Consulta e Consentimento Prévio, Livre e Informado (OPCPLI). Os eventos aconteceram na Universidade Federal do Amapá (Unifap), em Macapá, reunindo lideranças indígenas, pesquisadores, representantes de comunidades quilombolas, juristas e organizações da sociedade civil para debater a defesa dos direitos territoriais e da justiça socioambiental.

Durante os quatro dias de programação estiveram em pauta temas centrais para os territórios, como exploração de petróleo na Amazônia, mineração e garimpo, licenciamento ambiental, protocolos autônomos de consulta prévia, livre e informada e os desafios para garantir os direitos assegurados pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Lideranças indígenas participaram ativamente das mesas de debate, oficinas e atividades de formação, levando para o centro das discussões as experiências dos povos indígenas do Amapá e norte do Pará na defesa de seus territórios e na construção de mecanismos próprios de proteção de seus direitos.

Mesas de debate

A primeira mesa do congresso, “Petróleo na Amazônia”, foi dedicada aos impactos da exploração petrolífera sobre os territórios tradicionais, com a participação de Edmilson Karipuna (CCPIO), Sonia Jeanjacque (CCPIO), Rosimeire Ramos Macedo (Quilombo Cunani), Lucas Kannoa (Arayara), Alessa Nunes (WWF) e Felício Pontes (MPF/PA), contando com a moderação de Rita Becker, coordenadora do Programa Oiapoque do Iepé.

Coordenadora do Programa Oiapoque participou de mesa sobre petróleo (Foto: equipe Iepé)

Além de trazer relatos dos impactos socioambientais do projeto de exploração de petróleo e as pressões políticas e ameaças aos defensores de direitos humanos, sentidas mesmo antes do início da perfuração, foram apresentadas as lacunas do licenciamento, os processos de judicialização, a necessidade de processos autônomos de monitoramento e a conta social e ambiental que não entra no cálculo dos empreendimentos. 

“Esse projeto tira o nosso sossego. Desde que se começou a falar em petróleo, já estamos sentindo os impactos: no aumento do fluxo da rodovia BR-156, no tráfego aéreo afugentando a caça, na pressão sobre os nossos territórios. O Mangueirinha é um berçário, que pode ser destruído se houver um vazamento. Nós dependemos dos rios e lagos para a nossa sobrevivência, isso o dinheiro não paga. Se o rio acabar, a vida acaba”, disse o cacique Edmilson Karipuna, representante do Conselho de Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO).

A mesa também colocou em xeque os princípios da abertura de uma nova fronteira petrolífera no país com as perguntas: haverá demanda por petróleo daqui 30 anos? Quem precisa e quem ganha com isso? É esse o futuro que imaginamos?

A segunda mesa,“Mineração, Garimpo, Povos e Natureza”, com a participação do coordenador do Programa Gestão da Informação do Iepé, Décio Yokota, contribuiu para o debate sobre os impactos dessas atividades nos territórios indígenas e na saúde das populações. “Com o aumento do garimpo na Amazônia, há o aumento do uso de mercúrio e consequentemente de contaminação dos rios, dos peixes e das pessoas”, afirmou. A mesa contou ainda com depoimentos das lideranças wajãpi, Kumaré e Warapa’ara, que relembraram a invasão garimpeira em seu território nos anos 1970 e a degradação deixada pelo garimpo, reforçando sua preocupação com os atuais fluxos de garimpeiros no entorno de seu território. 

Coordenador do Programa Gestão da Informação participou dos debates em mesa sobre mineração (Foto: equipe Iepé)

“Protocolos de Consulta” foi o tema da terceira mesa, com a participação de Jawaruwa Wajãpi, que trouxe um relato sobre o processo de elaboração do protocolo do seu povo, o primeiro do Brasil, e apontando os desafios também da implementação do mesmo, com experiências bem sucedidas – no caso da consulta sobre um projeto da Unifap – e outras muito morosas e desafiadoras – como o caso da consulta sobre ordenamento territorial no entorno da TIW. Também foram apresentados os casos dos protocolos do Xingu, por Ianukula Kaiabi (RCA), e dos povos do Alto Rio Negro, por Helio Gessem Tukano (FOIRN), ambos protocolos que vivenciaram o desafio de articulação de vários povos em um documento, um processo de tomada de decisão comum. “Todos povos tem sua forma de organização, sua forma de tomar decisão, o protocolo nada mais é do que colocar isso no papel”, disse Ianukula Kaiabi.

Representando o Fundo Pakará, Mitore Katxuyana apresentou o uso do protocolo de consulta do Tumucumaque para construção de um fundo próprio para financiar a implementação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) de seus povos. “Nosso protocolo não ficou guardado no papel. Ele foi usado para abrir o caminho para discutirmos e criarmos um fundo próprio, o Fundo Pakará, dialogando em todo o nosso território”, afirmou.

Além disso, foram trazidas experiências do Peru e de comunidades quilombolas na elaboração dos protocolos e na implementação do direito à consulta. Questões como: Quem consulta? Quando consultar? Há poder de veto? Foram algumas das discussões levantadas pela plenária e debatidas pela professora Liana Lima, da UFGD, e coordenadora do Observatório de Protocolos.

Encerramento

O coordenador executivo do Iepé, Luis Donisete Grupioni, também participou da programação do congresso e coordenou a conferência de encerramento, que contou com intervenções do professor Carlos Marés (PUC do Paraná), idealizador do Congresso de Direito Socioambiental, e da liderança Auricélia Arapiun, do baixo Tapajós. A mesa teve foco nos papéis da justiça e do movimento indígena na luta pela garantia de direitos. “O mundo que conhecemos hoje não vai continuar, ele vai acabar. E a mudança virá pelos povos e comunidades tradicionais  e pela imposição dos direitos coletivos” afirmou o professor Marés. Já Auricélia contou as lutas travadas no Pará para que os direitos indígenas sejam respeitados, relembrando o movimento de ocupação da Secretaria de Educação do Pará e da empresa Cargill, afirmando que a consulta aos povos indígenas precisa ser prévia e não póstuma a decisões já tomadas pelo poder executivo.

Carlos Marés, Luis Donisete e Auricélia Arapiun estiveram em conferência de encerramento (Foto: equipe Iepé)

“Durante as atividades deste Congresso, reunindo profissionais do meio jurídico e lideranças sociais foram visibilizados tanto sujeitos sociais que não são considerados em grandes obras de infraestrutura, quanto às principais lutas socioambientais que estão sendo travadas hoje e que definirão o futuro da Amazônia”, afirmou Luis Donisete. 

Promovido por universidades, grupos de pesquisa em direito e organizações da sociedade civil, entre elas a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará e o Centro de Pesquisa e Extensão em Direito Socioambiental (CEPEDIS), o Congresso reafirmou a importância da articulação entre povos indígenas, comunidades tradicionais, pesquisadores e instituições para enfrentar os desafios socioambientais da Amazônia e fortalecer os direitos territoriais. Ao final da programação, os participantes iniciaram a elaboração de uma carta política com encaminhamentos e posicionamentos conjuntos sobre os temas debatidos ao longo do encontro.

Exposição Somos da Terra

Durante o Congresso, o Iepé inaugurou, no campus da UNIFAP, a exposição “Somos da Terra”, que apresenta a diversidade dos povos indígenas do Amapá e do norte do Pará por meio de banners com informações sobre seus territórios, modos de vida, línguas, formas de organização e iniciativas desenvolvidas em parceria com o Instituto. Aberta ao público durante o evento, a mostra ampliou o diálogo entre participantes e visitantes sobre a riqueza cultural e a importância da proteção dos povos indígenas da região.

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