Texto: Marcelo Domingues

O intercâmbio cultural entre comunidades indígenas Kali’na do Brasil e da Guiana Francesa ganhou novos capítulos ao longo de 2026, fortalecendo relações históricas que atravessam a fronteira entre os dois países. As atividades reuniram representantes das comunidades, organizações indígenas e instituições parceiras em encontros realizados na Aldeia Galibi, no município de Oiapoque, e na aldeia Awala-Yalimapo, na Guiana Francesa.
Essa relação tem uma história que antecede os atuais intercâmbios. Os Galibi Kali’na que vivem no Brasil são originários da região do rio Mana, no litoral da Guiana Francesa. Por volta de 1950, um grupo de 38 pessoas, liderado por Geraldo Lod, deixou a região de Mana e atravessou o rio Oiapoque em três canoas, estabelecendo-se na margem direita do rio, onde foi formada a comunidade São José dos Galibi. A aldeia permanece no mesmo território desde então, mantendo vínculos históricos, familiares e culturais com os Kali’na que vivem na Guiana Francesa. Ao longo das décadas, os contatos entre os grupos foram reduzidos, mas os encontros recentes foram oportunidades de reaproximação.
Os intercâmbios têm como propósito ampliar a circulação de conhecimentos, experiências e práticas culturais entre os Kali’na nos dois lados da fronteira, além de fortalecer redes de cooperação voltadas à valorização do patrimônio cultural, à organização comunitária e ao desenvolvimento de iniciativas conduzidas pelas próprias comunidades.
O primeiro encontro, no Oiapoque
A primeira etapa ocorreu entre os dias 29 e 31 de maio de 2026, na Aldeia Galibi, em Oiapoque, reunindo sete representantes Kali’na das aldeias Awala-Yalimapo, Terre Rouge e Prospérité, na Guiana Francesa, além de integrantes da Peupl’en Harmonie, Na’Na Kali’na, Museu Kuahí e Instituto Iepé.
Durante a programação, os participantes realizaram visitas guiadas ao Museu Kuahí, ao Empório Uasei, ao escritório do Instituto Iepé e à Aldeia Curipi, na Terra Indígena Uaçá. As atividades possibilitaram o compartilhamento de experiências relacionadas à preservação do patrimônio cultural, à organização comunitária e à geração de renda, além da discussão sobre desafios e estratégias desenvolvidas pelas comunidades em seus territórios.
O encontro marcou o início de uma nova etapa de aproximação entre comunidades Kali’na que, embora separadas pela fronteira entre Brasil e Guiana Francesa, mantêm vínculos históricos e culturais.
Para Valdo Jean Jacque, do povo Galibi Kali’na e coordenador da associação Na’Na Kali’na, a continuidade desse contato é importante para recuperar relações que haviam se enfraquecido. “O intercâmbio permite reencontrar parentes, trocar experiências, fortalecer os saberes tradicionais e principalmente mostrar aos nossos jovens que fazemos parte de um mesmo povo. Fomos separados por uma fronteira criada pelo não indígena”, afirmou.

Saberes que atravessam a fronteira
A segunda etapa ocorreu entre 31 de julho e 2 de agosto de 2026, na aldeia Awala-Yalimapo, na Guiana Francesa, reunindo sete representantes Kali’na da Aldeia Galibi, no Brasil, além de integrantes da associação Na’na Kali’na e do Instituto Iepé. A programação foi organizada pela Peupl’en Harmonie, com apoio da Prefeitura de Caiena.
Durante os três dias, o grupo visitou as aldeias Prospérité e Awala-Yalimapo e a Reserva Natural Nacional de Amana. Na região, os participantes conheceram ações de conservação e o berçário natural de Kawana, área de reprodução de tartarugas marinhas. A programação também incluiu oficinas de Sanpula, tambor tradicional Kali’na, realizada pela Associação Ayawande e de grafismos Kali’na.
Entre os participantes estava o jovem comunicador indígena Vinicius Jean Jacque. Para ele, conhecer a região teve um significado particular por estar relacionada às histórias que ouviu de seu avô Miguel sobre a migração dos Kali’na para o Brasil. “Eu sempre escutei o vovô Miguel contando as histórias de como os Kali’na migraram para o Brasil. Então, estar no lugar em que os nossos antepassados estavam foi muito especial”, contou.

Um dos momentos mais marcantes da programação foi a participação do grupo na 14ª Noite do Sanpula, celebração que reúne cantos ancestrais, danças e o consumo de caxixi, bebida tradicional à base de mandioca.
Segundo Vinicius, participar da oficina e da Noite do Sanpula possibilitou aos Kali’na do Brasil retomar referências relacionadas às suas festas e rituais. “Participar da oficina e da Noite de Sanpula foi importante para que nós, os Kali’na do Brasil, nos reaproximássemos e pudéssemos fazer as nossas festas e rituais como antigamente”, comentou.

Aprender diretamente com os mais velhos
Posteriormente, os participantes se reuniram para avaliar os encontros e compartilhar experiências vividas durante o intercâmbio. Entre os aspectos destacados por eles esteve a importância da convivência direta com as comunidades e com os detentores dos conhecimentos tradicionais.
O contato com mestres, músicos, artesãos e outros integrantes das comunidades permitiu acompanhar processos de produção de instrumentos, conhecer as histórias e compreender diferentes formas de transmissão desses conhecimentos.
Para Valdo, a continuidade do intercâmbio deve estar diretamente ligada à transmissão dos saberes entre as gerações. “É muito importante que essas atividades não sejam apenas oficinas, mas momentos de aprendizado, onde os mais velhos possam ensinar os mais jovens”, ressaltou.
A participação da juventude também foi apontada como uma dimensão importante do intercâmbio. A expectativa, segundo Valdo, é que os jovens assumam um papel ativo na continuidade dos conhecimentos. “Queremos que os jovens não sejam apenas participantes, mas os protagonistas, porque eles são o futuro”, afirmou.
Para Vinicius, a comunicação indígena pode contribuir para esse processo ao registrar e compartilhar as experiências vividas durante os intercâmbios. “Nós, os comunicadores indígenas, podemos ajudar a levar a cultura e os ensinamentos para as demais pessoas, contando as histórias e experiências que escutamos e registramos, evitando que os ensinamentos sejam perdidos”, pontuou.
A perspectiva é que esses encontros contribuam para aproximar novamente comunidades Kali’na dos dois lados da fronteira e criem espaços permanentes para a circulação de conhecimentos. A continuidade do intercâmbio pretende, assim, ampliar as possibilidades de encontro entre as comunidades e fortalecer processos de transmissão cultural protagonizados pelos próprios Kali’na.

Para saber mais sobre a história da migração do povo Kali’na para o Brasil, clique aqui.


