Mulheres fortalecem sua articulação e conhecimentos no lado oeste do Tumucumaque

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Mais de 80 indígenas se reuniram na aldeia Missão Tiriyó para trocar experiências e tomar decisões. A gestão do Fundo de Artes e Artesanatos Wëriton Iyeripo foi uma das principais pautas
Mulheres, jovens e crianças estiveram reunidas na aldeia Missão Tiriyó em setembro de 2026 (Foto: Alison Pereira – Iepé)

No lado oeste da TI Parque do Tumucumaque, as mulheres se organizam coletivamente por meio da Articulação das Mulheres Indígenas Tiriyó, Katxuyana e Txikiyana (AMITIKATXI). Nascida em 2018, a articulação tem contribuído para fortalecer a participação política das mulheres nos espaços de decisão e promover o exercício da autonomia por meio da gestão de seu fundo coletivo. Um dos momentos mais importantes para a articulação é o encontro anual, que reúne representantes de diferentes aldeias para conversar, trocar experiências e discutir questões que fazem parte do cotidiano das mulheres. Neste ano, mais de 80 mulheres participaram do encontro, realizado entre os dias 14 e 18 de setembro, na aldeia Missão Tiriyó.

Para uma das lideranças da articulação, Mitore Cristiana Tiriyó Kaxuyana, esse momento de encontro é especial. “Apesar de o território ser único, ele é grande, com várias regiões e aldeias distantes. Por isso, aproveitamos bastante essa oportunidade de estarmos todas juntas para retomar as conversas sobre nossos artesanatos, valorizando cada vez mais os conhecimentos das mulheres, que aprendemos com nossas antepassadas e também passamos para as próximas gerações. Isso fortalece a todas nós”, afirmou. Mitore também destacou a presença expressiva de jovens nesta edição, considerada fundamental para que os conhecimentos e o trabalho da articulação continuem.

Entre diversos assuntos de interesse de todas, como a vassoura-de-bruxa da mandioca e as ações que estão sendo implementadas pelo Fundo Pakará, o principal assunto foi a gestão do Fundo de Artes e Artesanatos Wëriton Iyeripo, por meio do qual, com a produção e venda de artes, as mulheres fortalecem seus conhecimentos e exercem sua autonomia. São peças únicas, produzidas com sementes, algodão, miçangas e outros recursos da floresta, com desenhos e grafismos próprios desses povos. 

O Fundo de Artes e Artesanatos Wëriton Iyeripo existe para organizar e fortalecer esse trabalho dentro da AMITIKATXI, que é vinculada à Associação dos Povos Indígenas Tiriyo, Katxuyana e Txikuyana (APITIKATXI). É uma iniciativa pioneira, que já foi reconhecida por premiações e tem servido de inspiração para mulheres indígenas de outras regiões, que também estão começando a criar fundos parecidos. 

Criado em 2019, o Fundo já movimentou mais de R$ 100 mil, destinando recursos às próprias artesãs e à manutenção de um fundo coletivo. Durante as discussões sobre o assunto no encontro deste ano, as mulheres decidiram não tirar dinheiro do fundo coletivo, deixando que ele renda para proporcionar benefícios maiores a todas no futuro. 

Apresentação da primeira fase do aplicativo que está sendo desenvolvido especialmente para o Fundo de Artes Wëriton Iyeripo (Foto: Cecília de Santarém – Iepé)

Aplicativo de gestão

Para aprimorar a gestão do Fundo, está sendo desenvolvido um aplicativo, apresentado para discussão coletiva durante o encontro. O sistema deve dar mais autonomia às artesãs e às articuladoras, responsáveis por acompanhar os grupos de artesãs. Pela ferramenta, será possível cadastrar novas peças, acompanhar em tempo real as vendas e consultar o saldo de cada artesã, entre outras funções. Ainda em fase de testes, o aplicativo deve ser traduzido para o Tiriyó, a língua mais falada na região, para facilitar a navegação de todas as mulheres, mesmo as que não são falantes de português. 

“Com esse novo aplicativo, vamos estar mais por dentro, acompanhar com mais facilidade o que foi vendido e o que ainda não foi. Essa ferramenta vai facilitar para gente”, comentou Maria de Lourdes Wokratsaha Kaxuyana, que vive na aldeia Missão Tiriyó. Lene Tëmpi Tiriyó, da aldeia Kumakaentu, concordou: “falo para minha filha mais nova: aprenda sobre esta ferramenta, tenha um bom manuseio dela. A internet pode ter coisas boas por dentro também. Hoje em dia, as crianças já sabem mexer nessas tecnologias. Nossas netas poderão aprender tranquilamente e ensinar para nós, para aprimorarmos nosso trabalho”.

O aplicativo é um projeto-piloto que, quando implementado, poderá servir de inspiração para outras iniciativas, assim como o próprio Fundo Wëriton Iyeripo já inspira mulheres indígenas de outras regiões.

Outra decisão importante tomada durante o encontro diz respeito à participação dos homens no Fundo. As mulheres decidiram coletivamente que eles poderão integrar a iniciativa como artesãos e utilizar a ferramenta para comercializar suas peças. As funções de articulador e gestor, no entanto, ficam reservadas às mulheres.

Encontro teve atividades práticas voltadas a assuntos como a precificação das peças e o fortalecimento dos grafismos (Foto: Alison Pereira – Iepé)

Também houve espaço para falar do mïntato, palavra em Tiriyó usada para se referir ao período de resguardo da menarca, a primeira menstruação. Desde 2024, a AMITIKATXI vem discutindo formas de fortalecer essa prática, considerada um momento importante para a transmissão de conhecimentos tradicionais. É durante o mïntato que as mulheres mais velhas compartilham com as meninas ensinamentos como o trabalho com o algodão e práticas de preparo do corpo que, conforme seus conhecimentos tradicionais, contribuem para fortalecer as mulheres.

Troca de experiências com a AMIWA

No lado leste do Tumucumaque existe outra organização de mulheres: a Associação de Mulheres Indígenas Wayana e Aparai (AMIWA), vinculada à Associação dos Povos Indígenas Wayana e Aparai (APIWA). Pela primeira vez, uma representante da organização do outro lado do território, esteve presente para trocar experiências. Desde o primeiro encontro da AMITIKATXI, em 2019, havia o desejo por esta participação, até então inviável pelos altos custos logísticos.

Noemi Wayana Apalai apresentou o  histórico de trabalho da AMIWA, que se destaca em projetos ligados ao manejo das roças e de plantas medicinais. Sobre artes e artesanatos, a visitante compartilhou seus conhecimentos sobre acabamento de peças, apresentando novos materiais e técnicas que podem ser incorporados ao trabalho das mulheres do oeste, valorizando ainda mais suas peças. As artesãs da AMIWA são amplamente reconhecidas pelo esmero na produção de seus artesanatos.

Parceiros

O encontro também teve espaço para a participação dos parceiros, como o Iepé, que apoia a AMITIKATXI e seu fundo desde a sua criação. Junto com as mulheres, a assessoria realizou atividades de precificação e cadastramento das novas peças criadas pelas artesãs, disponíveis para venda, além de colaborar para a atualização de pontos do regimento da articulação e na projeção de novas iniciativas.

“A AMITIKATXI é um grande exemplo de trabalho coletivo e da força das mulheres que conseguem, a partir de suas diferentes origens e visões, construir juntas um presente e um futuro mais bonito pros seus povos. Seja por meio de ações de vanguarda, como obras de arte e filmes, seja fortalecendo os conhecimentos das mais antigas no trabalho com as sementes, o algodão ou os grafismos”, comentou a assessora do Iepé, Cecília de Santarém, que acompanha o trabalho da articulação e esteve presente no encontro.

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) também enviou uma representante, a servidora Lorrana Cerezer, que aproveitou as mulheres reunidas para tirar dúvidas e detalhar os serviços e benefícios públicos aos quais as mulheres indígenas podem ter acesso. A Funai é parceira do Fundo de Artes Wëriton Iyeripo desde o primeiro encontro das mulheres, em 2019.

O encontro de mulheres foi realizado pela AMITIKATXI, com apoio do Iepé e dos parceiros Nia Tero e Bezos Earth Fund.

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