Texto: Angélica Queiroz

A Maya, casa grande, da aldeia Kassawa, na Terra Indígena Nhamundá-Mapuera, ficou movimentada entre os dias 8 e 10 de setembro de 2026. Caciques, lideranças, jovens, mulheres, idosos e crianças, de 17 aldeias, se reuniram com representantes de instituições parceiras, como o Iepé, a CR Manaus/Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de Parintins, e a Secretaria Municipal de Educação de Nhamundá, para a realização da XXIV Assembleia Ordinária do Conselho Geral do Povo Hexkaryana (CGPH).
O encontro foi marcado por momentos de avaliação da atuação da diretoria do CGPH nos últimos 12 meses e pelo apontamento de prioridades para 2027, como a organização das lideranças, o fortalecimento da atuação institucional da organização indígena e o apoio às mulheres, à juventude e à economia sustentável dos povos do rio Nhamundá. Esses temas estão entre os eixos prioritários do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) do Território Wayamu, que inclui a TI Nhamundá-Mapuera.
Para o cacique Zaqueu Feya, importante liderança da região, a Assembleia foi uma oportunidade para que a comunidade tomasse decisões coletivas sobre diversas pautas de interesse geral. “Falamos sobre educação, saúde e outros projetos importantes para o nosso povo”, contou.
A articulação para ampliar o acesso dos povos indígenas a políticas públicas foi um dos assuntos de destaque. Sobre isso, o representante do DSEI de Parintins, presente em Kassawa, apresentou às lideranças detalhes sobre a mudança da sede da Casa de Saúde Indígena (CASAI) em Nhamundá para um novo prédio, com melhores condições para o atendimento de pacientes indígenas que estão em tratamento na cidade. A Assembleia também aprovou a formalização de um acordo de cooperação entre o Iepé e o DSEI para fortalecer ações de saúde nas aldeias.

Também foi destacada a importância do trabalho conjunto com a Associação dos Povos Indígenas do Alto Rio Nhamundá (ASPIARIN), que tem contribuído para conquistas importantes em diferentes áreas. Na educação, por exemplo, a aproximação e parceria com a UFAM feita pelas duas associações resultou na implementação de um cursinho pré-vestibular para indígenas, com aulas na aldeia Kassawa e na cidade de Nhamundá.
Projetos e parcerias
A parceria com o Iepé foi avaliada em diferentes momentos da Assembleia. As lideranças reconheceram o papel do instituto ao longo dos anos, destacando os resultados do trabalho conjunto no fortalecimento institucional do CGPH e das associações. Entre as iniciativas está a estruturação de um escritório compartilhado pelas duas associações e pelo Iepé, recém-inaugurado em Nhamundá.
O CGPH apresentou ainda os resultados de alguns projetos e aproveitou o espaço para o planejamento de ações relacionadas à proteção territorial. Entre elas, a indicação de locais estratégicos para a instalação de dois postos de vigilância, previstos no projeto “Garantindo Direitos Territoriais na Amazônia Brasileira”, que está sendo executado em parceria com a Associação Indígena Kaxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK) e com o Fundo Indígena Podáali.

Pela primeira vez, estiveram presentes na Assembleia, a convite do CGPH, professores do câmpus de Parintins da UFAM, que dialogaram com as lideranças sobre como aproximar a universidade dos povos indígenas do rio Nhamundá. Para o professor Patrício Azevedo, foi um momento de muito aprendizado. “Vim ouvir as demandas para que eu possa retornar à universidade e debater com meus colegas”, comentou.
Já a professora Marklise Siqueira reforçou que é essencial que a universidade vá ao território pensar coletivamente com os indígenas em projetos e pesquisas. “Não tem como a universidade fazer ações para o territórios sem escutar o que ele realmente precisa”, afirmou. “Historicamente esses povos não foram ouvidos por muitas instituições. É um privilégio poder colaborar para mudar isso, para que a gente tenha um mundo de bem viver”, completou.
O encontro terminou fortalecendo parcerias, como destacou a servidora da Coordenação Regional Manaus da Funai, Hamila Trindade. “Enquanto instituição pública é fundamental que a gente esteja aqui para que possa não só ouvir as demandas, mas estreitar relações para promover a implementação da política indigenista no território”, afirmou.
A Assembleia Ordinária do CGPH foi realizada pela organização indígena, com parceria do Iepé, e apoio da Nia Tero, Bezos Earth Fund, Fundo Lira e Fundo Podáali.


