“Seguramos nossos filhos em nosso colo, mas também seguramos a força do nosso território.”

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Afirmação foi feita por Luene Karipuna, coordenadora da APOIANP, durante encontro de mulheres indígenas do Amapá e norte do Pará, em Macapá

Texto: Maria Silveira

Mulheres indígenas apresentam ações de combate à violência de gênero no encontro Empodera e Proteger. (Foto: Maria Silveira – Iepé)

“Seguramos nossos filhos em nosso colo, mas também seguramos a força do nosso território.” A afirmação é de Luene Karipuna, coordenadora da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (APOIANP), e expressa a responsabilidade que as mulheres indígenas assumem na proteção de suas famílias, no cuidado com suas comunidades e na defesa de seus territórios. A fala foi compartilhada durante o encontro “Empoderar e Proteger: Elaborando Políticas Públicas com e para as Mulheres Indígenas do Amapá e Norte do Pará“, realizado de 19 a 23 de outubro, em Macapá (AP).

Cerca de 50 mulheres indígenas do Território Wajãpi, do Complexo do Tumucumaque e das Terras Indígenas de Oiapoque participaram da formação para discutir o impacto das mudanças climáticas nos seus modos de vida, o enfrentamento à violência de gênero, a saúde integral das mulheres e a construção de políticas públicas alinhadas às suas realidades.

“É um encontro muito potente, por ser o primeiro encontro de mulheres indígenas a nível de estado que a APOIANP promove, principalmente porque as mulheres precisam se posicionar. Somos as principais impactadas com todas as decisões que são tomadas e que causam problemas para o nosso território. Então, nós, mulheres indígenas, somos a linha de frente”, afirma Luene.

Proteção de meninas e mulheres

Compartilhar experiências de diferentes territórios e discutir as possibilidades de acolhimento e apoio às mulheres foi, para Ereu Apalai, uma das contribuições mais importantes do encontro.

“É uma oportunidade para mulheres de diferentes regiões compartilharem suas experiências e relatarem o que vivenciam. Precisamos pautar essas questões para levar informação e apoio a outras mulheres, além de conscientizá-las sobre a violência que acontece nas aldeias”, afirma Ereu.

Durante a formação, as participantes participaram de atividades voltadas à saúde e ao bem-estar, além de dinâmicas de integração e fortalecimento coletivo. (Foto: Maria Silveira – Iepé)

Durante o encontro, as participantes compartilham experiências sobre o papel de caciques, conselhos e outras lideranças na escuta dos envolvidos e na busca por encaminhamentos. A troca de vivências permitiu reconhecer desafios comuns, sem desconsiderar as diferenças entre povos, comunidades e contextos de vida. 

Marinalda da Silva, do povo Karipuna, destacou a dificuldade de acompanhar o sofrimento de outras mulheres e ressaltou a importância de encontrar formas de apoiá-las. É muito difícil ver nossas parentes sofrerem e não sofrer junto com elas, sem poder fazer nada. Por isso, considero este debate muito importante. Espero que possamos levar para nossas comunidades o que estamos aprendendo aqui e encontrar caminhos para enfrentar esses problemas. Também esperamos que os órgãos competentes possam nos ajudar a buscar soluções”, afirmou

Entre os caminhos discutidos estão o fortalecimento da escuta e do apoio às mulheres, o envolvimento das lideranças, a conscientização de homens e jovens e a participação das escolas em ações educativas com estudantes, familiares e responsáveis.

Mudanças climáticas

“Eu vejo a mudança climática muito forte agora. O sol está muito quente, a maioria sem roça. Antigamente, nosso povo tinha bastante roça. Na nossa região já chegou a vassoura-de-bruxa da mandioca”, relatou Arinaware Apalai Waiana, expressando sua preocupação com as transformações ambientais em seu território.

As mudanças climáticas estiveram entre os temas amplamente debatidos pelas participantes, que compartilharam preocupações sobre os impactos nas roças, incluindo a ocorrência da vassoura-de-bruxa da mandioca, e as consequências para seus modos de vida. Pakitu Waiapi chamou a atenção para a perda de manivas e variedades de mandioca: “Na minha aldeia está acontecendo a mudança climática porque na roça não tem a maniva. Não sobrou maniva nem variedades. Já sabemos que as mudanças climáticas estão afetando nossa aldeia e todas as aldeias. Todas as aldeias perderam a variedade e por isso fiquei muito triste.”

Um grupo de mulheres da turma de Agentes Ambientais Indígenas de Oiapoque (AGAMIN), conhecidas como “Agaminas”, também compartilhou suas pesquisas sobre o manejo de tracajás e alguns marcadores do tempo reconhecidos pelos povos indígenas de Oiapoque.

Agentes Ambientais Indígenas de Oiapoque apresentaram seus trabalhos sobre mudanças climáticas. Na ocasião, Mara Karipuna conduziu a abertura da mesa de debates. (Foto: Maria Silveira – Iepé)

As propostas elaboradas durante a formação irão contribuir para um documento a ser compartilhado com parceiros e instituições, reunindo as demandas e recomendações construídas pelas participantes. As discussões também irão subsidiar a elaboração de diretrizes indígenas para o Plano Integrado de Metas para o Enfrentamento da Violência contra Mulheres e Meninas no Amapá.

O encontro foi promovido pela APOIANP e pela União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB), com financiamento do Fundo Podáali. Também contou com a parceria do Instituto Iepé, do Instituto Clima e Sociedade (ICS), do Distrito Sanitário Especial Indígena do Amapá e Norte do Pará (DSEI-AP), do movimento 350.org e do Sindicato dos Docentes da Universidade Federal do Amapá (SINDUFAP)

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