Cartilha sobre a praga da mandioca é lançada no Oiapoque

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Produzida pela Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM) com apoio do Iepé, material reúne informações sobre o combate ao fungo que vem devastando as roças do Oiapoque. Mandioca é elemento central nos modos de viver das comunidades indígenas da região

Texto: João Bourroul

Maniva infestada pelo fungo Rhizoctonia theobromae, causador da praga da mandioca (Foto: Acervo Iepé)

Em 2022 uma praga passou a atingir as plantações de mandioca nas aldeias do Oiapoque. Os primeiros indícios foram notados nas folhas, que passaram a amarelar e cair, mesmo quando as raízes ainda pareciam saudáveis. De lá pra cá, a praga ganhou nome, se espalhou para outras regiões da Amazônia e motivou uma onda de ações de resistência dos povos indígenas. A mais recente delas é o lançamento da cartilha “Renovando as esperanças: saberes, práticas e vivências nas roças indígenas em Oiapoque”, que ocorreu no dia 28 de outubro no Museu Kuahí, no Oiapoque. 

“O projeto nasceu para promover pontes de diálogo. Ele permitiu unir os conhecimentos tradicionais que as mulheres indígenas já possuem sobre a terra e técnicas modernas de cultivo, para que outras mulheres de diferentes regiões pudessem compartilhar soluções que funcionaram, identificando variedades de plantas mais resistentes”, conta Irene Batista Felicio, indígena da etnia Palikur. Moradora da Terra Indígena Uaçá, no Oiapoque, Irene é presidente da Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM), organização responsável pela cartilha, em parceria com o Instituto Iepé. “Criamos a cartilha para diminuir o impacto causado pelo fungo nas roças. E está dando certo”, completa Irene.

O material recém-lançado reúne os resultados de seis oficinas sobre as roças e o manejo local da praga promovidas em 2024 nas Terras Indígenas do Oiapoque.  Com apoio do Iepé, a AMIM promoveu oficinas nas aldeias Ariramba, Kunanã, Kumarumã, Kumenê, Estrela e Espírito Santo, reunindo mais de 500 participantes, principalmente mulheres de diferentes gerações. 

As informações compartilhadas nas oficinas realizadas em 2024 são a base para a cartilha (Foto: Acervo Iepé)

As oficinas foram um momento de levantar e compartilhar informações sobre os sistemas agrícolas tradicionais, as variedades de manivas cultivadas no passado e no presente, as formas de manejo, os mutirões, as mudanças ambientais e os impactos provocados pela chamada vassoura de bruxa da mandioca, nome dado à doença causada pelo fungo Rhizoctonia theobromae por conta do enfraquecimento dos brotos da planta, que lembram uma vassoura. 

“Diversidade na roça é a nossa riqueza” 

Durante as oficinas relatadas na cartilha, as mulheres e os Agamin (Agentes Ambientais Indígenas) identificaram 59 variedades de manivas nas Terras Indígenas do Oiapoque hoje. O número impressiona, mas é bem menor que as 180 variedades identificadas antes da chegada da praga.  A estimativa é que a produção de mandioca no município do Oiapoque tenha caído mais de 42% após a praga chegar na região. 

Painel com as variedades de manivas identificadas antes e depois da praga demonstram o impacto do fungo (Foto: Acervo Iepé)

Esse trecho da cartilha ilustra com precisão a centralidade da mandioca nos modos de viver dos povos indígenas do Oiapoque: 

Cada tipo de maniva tem um nome e uma história: tem maniva que leva o nome de um rio, de uma comunidade, do lugar de onde veio, da pessoa que passou a muda, ou até de bicho — cauauá, lagarto, cabeça de macaco.

A roça é a base da vida para nós, povos indígenas do Oiapoque. Ela reflete nossa organização social, nossa cosmologia e a identidade dos quatro povos que habitam a região: Galibi-Marworno, Galibi Kali’na, Karipuna e Palikur Arukwayene. 

É da roça que vem a farinha de mandioca, alimento presente em todas nossas refeições, acompanhando o peixe, a caça e o açaí. A farinha também é uma importante fonte de renda para as famílias, que comercializam seus produtos em Oiapoque e em Saint Georges, na Guiana Francesa.

Leia a cartilha!  

Ainda não há uma confirmação a respeito da maneira que a praga se espalha, mas atualmente são três as hipóteses discutidas sobre como os esporos do fungo são  transportados: vento; contaminação de roupas e outros materiais; contaminação de material genético  – alguém leva uma muda contaminada para uma roça saudável. É possível que as três formas ajam em conjunto.

Resistir, comunicar e diversificar 

A articulação política realizada em parceria com o Conselho de Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO) gerou o decreto da situação de emergência pelo Governo do Amapá em 2023. Essa oficialização permitiu a implementação de ações como a distribuição de cestas básicas e a compra de farinha para as comunidades mais impactadas.  

O trabalho dos Agamin tem sido essencial durante todo o processo. O grupo formado por indígenas que atuam na gestão territorial e ambiental das comunidades vem realizando pesquisas para apoiar o manejo das roças no território. 

“A estratégia de combate é a retirada das partes contaminadas, fazendo cortes das pontas secas e queimar para que a mandioca possa nascer novamente. Andar frequentemente na roça e levar desinfetante para fazer a limpeza das ferramentas de corte”, explica Irene. 

A crise da mandioca fez com que os povos indígenas da região diversificassem sua produção agrícola. A Feira Indigena do Oiapoque talvez seja um dos grandes exemplos: realizada todo mês no centro da cidade, a mandioca e seus derivados – farinha, tucupi, goma, tapioca –  sempre foram uma das principais atrações. Com a crise ocasionada pela praga, os feirantes indígenas têm buscado alternativas principalmente no artesanato e no açaí, mas também banana, milho e garapa. 

Além das mulheres e dos Agamin, os jovens também deram sua contribuição no enfrentamento. Com apoio do Iepé, a Rede Arawa, formada por jovens comunicadores dos povos Galibi Kali’na, Galibi-Marworno, Karipuna e Palikur-Arukwayene, produziram uma série de vídeos sobre o impacto da praga nas roças do Oiapoque. Os vídeos integraram a exposição “Pandemia nas Roças”, que ficou aberta ao público no Museu Kuahí até outubro de 2026. Assista o curta abaixo e clique aqui para conferir a série toda.

Foi no mesmo Museu Kuahí que a cartilha da AMIM foi oficialmente lançada na tarde de 28 de outubro. O evento contou com a participação de aproximadamente 40 pessoas, representantes das organizações e escolas indígenas e instituições como a UNIFAP, EMBRAPA, SEPI e Iepé, celebrando mais um capítulo de resistência diante desse cenário tão desafiador para os povos indígenas do Oiapoque. “Com o lançamento da cartilha, a proposta é ampliar a disseminação desse conhecimento, levá-lo às escolas e inspirar iniciativas que contribuam para enfrentar os desafios das mudanças climáticas nos territórios”, afirma Teresa Harari, coordenadora adjunta do Programa Oiapoque do Instituto Iepé.  

Lançamento da cartilha no Museu Kuahí, em Oiapoque, realizado no dia 28 de outubro (Foto: Marcela Jeanjacque)

O projeto “Conhecimentos, autonomia e enfrentamento às mudanças climáticas entre as mulheres indígenas do Oiapoque” foi uma das propostas aprovadas no edital do Projeto Floresta+ Amazônia, uma iniciativa do Ministério do Meio Ambiente e do PNUD, com recursos do Fundo Verde para o Clima.

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