Texto: Angélica Queiroz

Um projeto de registro audiovisual de oficinas de criação de cerâmicas da Associação Indígena Palikur (Aipa), no Oiapoque, no Amapá. Um fundo de artes e artesanatos da Articulação das Mulheres Indígenas Tiriyo, Katxuyana, Txikuyana (Amitikatxi), no lado oeste da Terra Indígena Parque do Tumucumaque, no Pará. Além de serem iniciativas que fortalecem e valorizam a cultura indígena, os dois projetos, apoiados pelo Instituto Iepé, têm em comum o fato de terem sido premiados na última edição do Prêmio Cunhambebe Tupinambá.
O Prêmio é concedido pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e pelo Museu do Índio para promover e apoiar iniciativas culturais propostas pelos povos indígenas. Cada selecionado deve receber R$ 30 mil, montante que deve ser utilizado para dar continuidade aos seus projetos. Foram contempladas 12 iniciativas da Amazônia, 9 da Caatinga, 11 do Cerrado, 11 da Mata Atlântica, 3 do Pampa e 5 do Pantanal.
Registro audiovisual oficinas do Povo Palikur
Na Aipa o projeto premiado tem a ver com as oficinas que valorizam os conhecimentos tradicionais dos Palikur sobre artefatos, como escultura em madeira, cerâmica, tecelagem, confecção de cestarias, construção de canoas e elaboração de adornos. Especificamente, um vídeo inédito (que será publicado em breve) registrado durante as oficinas, com um acervo do processo de criação dos artefatos, entrevistas com mestres e narração de histórias do povo.

“As oficinas têm se mostrado momentos importantes de valorização e retomada dos conhecimentos Palikur, promovendo trocas intergeracionais. Desde o primeiro encontro, a produção de artefatos aumentou significativamente, inclusive da cerâmica elaborada pelas mulheres, que estava em processo de desaparecimento”, explica Tiago Palikur, jovem comunicador indígena do povo Palikur, integrante da Aipa e da Rede Arawa, coletivo de comunicação dos jovens do Oiapoque.
“Fiquei surpreso, sem acreditar que um material que eu demorei a editar, porque ainda estava aprendendo, ganhou um prêmio. Com certeza farei mais vídeos”, comenta Tiago. O valor recebido deve possibilitar a compra de materiais para a associação, como câmeras, computador e projetor, além de insumos para a confecção de artefatos e artesanato.
Fundo de Artes e Artesanatos Wëriton Iyeripo
O destaque da Amitikatxi — articulação de mulheres vinculadas à Associação dos Povos Indígenas Tiriyó, Katxuyana e Txikiyana (Apitikatxi) — veio por conta das atividades realizadas pelo Fundo de Artes e Artesanatos Wëriton Iyeripo, criado para fortalecer os grafismos, o algodão, as sementes, os cantos, as danças, e as artes com sementes e miçangas das mulheres do Tumucumaque.

“Tudo o que fazemos é uma construção coletiva”, explica Mitore Cristiana Tiriyó, vice-secretária da Apitikatxi e coordenadora da Amitikatxi. “Esse prêmio é muito bem-vindo, é mais uma conquista para a nossa articulação. Todas ficamos felizes porque isso nos fortalece e mostra que o nosso empoderamento está dando certo. Assim, cada vez somos mais incentivadas a continuar participando de outros editais”, completa.
Em quase três anos de existência, o Fundo já promoveu a catalogação de mais de três mil peças e administrou a venda de 800 produtos, ajudando a fortalecer as artes e a gerar renda para as mulheres do Tumucumaque e para a própria associação, que realiza encontros anuais que fortalecem a governança das mulheres da região e possibilitam a troca de conhecimentos entre as diferentes gerações.
O recurso recebido deve ser utilizado para dar continuidade às atividades já desenvolvidas, contribuindo para a aquisição de insumos e outras ferramentas que contribuam para valorizar as mulheres e perpetuar seus conhecimentos ancestrais. Também apoiará a elaboração de uma nova obra coletiva das mulheres do território, a exemplo da “Itu nai anya arimikane” (em português: “A floresta é nosso futuro/as árvores que nos fazem crescer”), uma samaúma composta por pulseiras, colares e brincos, feitos por mais de 30 artesãs.
A Amitikatxi se fortalece a cada passo dado pelo Fundo de Artes e Artesanatos Wëriton Iyeripo, a cada Encontro de Mulheres e também a cada Prêmio. Em 2024, o projeto da Amitikatxi já havia sido destaque no Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, entregue pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), numa edição especial que celebrou a Visibilidade de Gênero na Economia do Patrimônio.


