Mulheres do Tumucumaque se reúnem para trocar saberes sobre o algodão

As mulheres da região são grandes conhecedoras das técnicas de confecção de algodão, mas há anos notam os impactos das mudanças climáticas nos plantios e roças

Texto: Nacip Mahmud | 07/12/2021

Há tempos as mulheres da Terra Indígena Parque do Tumucumaque sentem a necessidade de reavivar e sistematizar seus conhecimentos sobre o manejo e o uso do algodão (Gossypium barbadense), conhecido como “mauru” na língua Aparai. A preocupação vem da diminuição dos plantios e da incorporação dos itens industrializados, com a consequente diminuição na confecção artesanal entre seus povos.


Para trocar experiências e conhecimentos sobre o algodão, mais de 120 mulheres indígenas se reuniram entre 8 e 12 de novembro, na aldeia Bona, no Tumucumaque Leste. Elas representaram as 25 aldeias da região leste da TI Parque do Tumucumaque e da TI Rio Paru d’Este. 

Foi o primeiro encontro de Articulação de Mulheres Indígenas Wayana e Aparai (AMIWA) após pararem por dois anos, devido à pandemia da Covid-19. O evento faz parte do projeto Omopara e contou com organização da Associação dos Povos Indígenas Wayana e Aparai (Apiwa) em parceria com o Fundo Casa e o Programa Tumucumaque do Iepé.

Juntas por vários dias, essas mulheres tiveram a oportunidade de fortalecer os conhecimentos sobre o cultivo e o manejo tradicional do algodão e a confecção de artesanatos, como redes, tipoias e artefatos tradicionais de caça e pesca.

Cartaz construído na Oficina de manejo do algodão, apontando as suas variedades e as fases de desenvolvimento até o ponto de colheita (Foto: Nacip Mahmud/Iepé)

Oficinas do manejo do algodão e artesanatos

“As mulheres começaram a oficina de algodão mostrando as variedades que existem na nossa região. Houve uma divisão em grupos para serem várias atividades. Uma delas foi um calendário sobre o cultivo. Já no terceiro dia do encontro, teve a distribuição das miçangas para todas as mulheres que estavam participando, e foi quando elas produziram artesanatos diversos, como colares, pulseiras e brincos,” contou Maiara Apalai, coordenadora da AMIWA.

O encontro foi marcado por ricos momentos, como quando as mulheres mais velhas apresentaram para as mais novas as técnicas de beneficiamento do algodão, desde a retirada das sementes, passando pelo processo de bater o algodão em tapetes de palhas de bacaba (apota) com o talo do buriti, a fiação das linhas com a roca (kyita), até à confecção dos rolos de linhas de algodão. 

Elas apresentaram oito variedades de algodão, usados para fiar linhas específicas para cada tipo de artefato. São eles: meikoro mano, irinai ety, apukuimano, arimi eryry, ipuhturu okuonu mano e mauru ipuhturu. 

Além disso, apresentaram os instrumentos para beneficiar e produzir as suas diversas linhas. O kyita, por exemplo, é utilizado na fiação desde o século XVII e as mulheres Wayana, Aparai e Tiriyó preservam as técnicas seculares. Existem três tipos de linhas para serem fiadas, cada uma com seu próprio kyita. Há linhas de algodão para redes, linhas de algodão macio para tipoias de crianças e linhas de algodão mais finas e resistentes, para os artefatos de caça e pesca. Esses instrumentos são importantíssimos pois servem para beneficiar e produzir as diversas linhas de algodão.

Mulheres waiana e aparai batendo algodão no apota (Foto: Nacip Mahmud/Iepé)

“No último dia, as mulheres apresentaram os trabalhos produzidos durante a oficina. E pediram por mais oficinas como essa, para fortalecimento dos trabalhos das mulheres da nossa região, e mais projetos de continuidade do projeto do Omohpara, que está em fase final da execução”, contou também Maiara Apalai.

Entre os artefatos produzidos estavam: “topoza” (tipóias para carregar bebês), otuato (redes de algodão), zamaryeary (adornos festivos para ombro), apopata (adorno festivo para punho), omexi (adorno festivo para pernas) e purowae (adorno festivo sobre peito). 

Em outro momento de destaque, as mulheres indígenas realizaram uma grande oficina de confecção de artesanatos com miçangas, retratando grafismos importantes para simbologia waiana e aparai, com mosaicos incríveis. Esse momento, inclusive, deu a largada à atividade produtiva de miçangas na região Leste do Tumucumaque, que faz parte do projeto Economia da Floresta (ForEco), que o Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena está desenvolvendo para apoiar cadeias produtivas da sociobiodiversidade no Amapá e norte do Pará, com apoio da Rainforest Foundation da Noruega.

Topoza tipoia para carregar bebês confeccionado na oficina(Foto: Nacip Mahmud/Iepé)

O mito da aranha e a origem do algodão entre as mulheres Wayana e Aparai
Durante o encontro, as mulheres Wayana e Aparai contaram uma de suas narrativas míticas sobre a produção do algodão:

Um dia, enquanto caçavam, antigos guerreiros encontraram uma aldeia de mulheres-aranhas. Elas estavam tecendo fios e os guerreiros perguntaram para que serviriam. “Para se deitar e dormir”, responderam as mulheres. Depois, os guerreiros trouxeram uma mulher indígena para ver as mulheres-aranhas tecendo as redes, mas chegando lá, ela desdenhou dizendo que a rede não suportaria o peso deles e que seria um trabalho perdido. 

Depois disso, uma jovem indígena pediu que as mulheres-aranhas a ensinassem a tecer. Com relutância, após serem desacreditadas pela mulher mais velha, as mulheres-aranhas falaram: “A vocês que falaram que a rede não aguentaria, não queremos ensinar a terem trabalho perdido”. Mas a jovem indígena insistentemente pedia para aprender a tecer com as mulheres-aranhas. Assim a mãe das aranhas deu a ela algumas sementes de algodão e a orientou a fazer roça e, depois, plantar as sementes.

Assim, a menina indígena fez a roça e plantou as sementes que vieram a ser o algodão (mauru), com flores coloridas e com grandes botões. Ela voltou à aldeia das aranhas com o algodão colhido e passou a aprender a tirar as sementes, a bater o algodão em um tapete feito de palha de buriti com o talo da folha do buriti, a fiar a linha de algodão na roca e a tecer grandes redes e tipoias para os Wayana e Aparai.

Até hoje as mulheres indígenas no Tumucumaque e no Rio Paru detêm um conhecimento ímpar do desenvolvimento do algodão. São oito espécies diferentes usadas para fiar diferentes linhas que são aplicadas em cada tipo de artefato específico.

Impactos das mudanças climáticas

“As mulheres indígenas relataram que nos últimos anos houve grandes mudanças na região. Muitos animais já sofrem o impacto na reprodução e, também, as plantas e outros seres”, contou Maiara Apalai sobre as conversas que focaram nos impactos das mudanças climáticas em suas roças. 

“Pensando nessas mudanças, nossas comunidades elaboraram um calendário sazonal, onde colocamos o que está acontecendo. As mudanças climáticas também já prejudicam as nossas plantações, que não estão se reproduzindo como antes, no tempo dos nossos antepassados”, completou Maiara. A conversa foi ainda mais inspirada pois tinham assistido o vídeo documentário Quentura.

As participantes construíram seus calendários sazonais focando nas atividades desenvolvidas nas roças indígenas e falaram sobre como os calendários já vêm sofrendo impactos com as mudanças do clima na região. Os impactos são preocupantes ao atingir atividades que sempre garantiram a autonomia alimentar desses povos indígenas, como é o caso das roças, com suas épocas de preparo e plantio diretamente afetadas.

Apresentação do calendário sazonal do manejo das roças indígenas. As mulheres contam que as mudanças climáticas já estão afetando as roças (Foto: Nacip Mahmud/Iepé)

No calendário sazonal de 1973, ano destacado pelas mulheres mais velhas, as atividades de abertura de roças começavam em agosto e os plantios, em outubro e setembro. Já no calendário de 2021, as aberturas de novas roças se deram entre setembro e novembro, mas já com chuvas fortes que dificultaram a limpeza tradicional das roças e atrasaram os plantios.

Quando comparados os calendários sazonais de 1973 e 2021, uma das alterações apontadas com sérias consequências pelas mulheres foi a mudança na época da desova dos tracajás devido à diminuição do tempo de praias expostas para que os quelônios possam depositar seus ovos e assim perpetuar sua espécie. 

Diferentes tipos de kyita, rocas de fiar as linhas de algodão (Foto: Nacip Mahmud/Iepé)

Histórico sobre a AMIWA
A Articulação de Mulheres Indígenas Wayana e Aparai (AMIWA) junto às mulheres Tiriyó da região Leste do Tumucumaque foi constituída durante a Assembleia Geral da Associação dos Povos Indígenas Wayana e Aparai (APIWA ), em 2018. 

Motivadas a assumir sua parte na governança do Plano de Vida (ou, Plano de Gestão Territorial e Ambiental, PGTA) em implementação no Tumucumaque Leste, desde então, as mulheres passaram a contribuir para o fortalecimento da APIWA, através da AMIWA. 

Já em 2018 tiveram aprovado um primeiro projeto, intitulado Orixiyana. Por meio dele, a AMIWA deu início a um processo de oficinas sobre temáticas relacionadas às mudanças climáticas e de apoio à melhoria do manejo dos recursos naturais (roças e plantas medicinais). 

No ano seguinte,  aconteceu o encerramento do projeto durante a Assembleia Anual da APIWA, quando as mulheres de todas as aldeias estavam presentes. Os caciques e demais lideranças avaliaram positivamente o projeto como um avanço para o fortalecimento da governança do PGTA e da implementação dos planos contidos no documento. Isso foi um incentivo para que as mulheres continuassem fortalecendo a articulação. 

Em 2019, a AMIWA submeteu um novo projeto pela APIWA, intitulado Omohpara. Seu objetivo seria dar continuidade ao fortalecimento das roças frente às mudanças climáticas com ênfase no manejo tradicional do algodão. 

Hoje, a AMIWA conta com aproximadamente 123 mulheres envolvidas e 25 lideranças, que representam cada aldeia da região leste do Tumucumaque.

Purowae – adorno sobre peito (Foto: Nacip Mahmud/Iepé)
Omehxi – adorno usado nos punhos (Foto: Nacip Mahmud/Iepé)
Dente de cutia usado para alisar os bastões do Kyita (Foto: Nacip Mahmud/Iepé)

Foto topo:  Lideranças das mulheres indígenas das 25 aldeias da região Leste do Tumucumaque e do Rio Paru d’Este (Foto: Nacip Mahmud/Iepé)