Nota de pesar pelo falecimento de Kasiripinã Waiãpi

O líder wajãpi foi importante no processo de demarcação da Terra Indígena Wajãpi, defensor da educação, da proteção da floresta e da valorização dos modos de vida dos Wajãpi.

Texto: Iepé| 17/01/2022

Acordamos hoje tristes com a notícia do falecimento de Kasiripinã Waiãpi, grande líder e um dos principais interlocutores do povo Wajãpi junto ao Iepé, ocorrida na noite de 16 de janeiro.

Ele estava no Centro Covid de Santana (AP) tratando de complicações deixadas pela Covid-19, que havia contraído mais de uma vez.

Kasiripinã nasceu por volta de 1960 e foi um importante líder no processo de demarcação da Terra Indígena Wajãpi. Atuou junto com os chefes Waiwai e Kumai, participando de vários embates em Brasília no final dos anos 1980. Foi um dos fundadores do Conselho das Aldeias Wajãpi – Apina e duas vezes presidente da organização, além de membro de seu conselho diretor em vários mandatos. 

Incansável viajante e muito respeitado por seus interlocutores externos, participou de eventos e palestras pelo Brasil e pelo mundo, em países como Alemanha, Noruega, Espanha, França, Estados Unidos e Colômbia. Nessas ocasiões, ele defendeu a proteção da floresta, a valorização e o fortalecimento dos conhecimentos, práticas e modos de vida dos Wajãpi. Também representou os Wajãpi no diálogo com parceiros e agências de cooperação, contribuindo para a captação de muitos projetos em benefício de seu povo.

Kasiripinã Waiãpi em reunião regional da Apina em 2021. (Foto: Acervo Iepé)

Kasiripinã trabalhou pela implantação de uma educação escolar diferenciada na TIW, pela formação de professores, agentes de saúde e outros profissionais de suas comunidades. Quando a formação de pesquisadores wajãpi foi iniciada, ele foi um orientador e incentivador assíduo, demonstrando imensa felicidade com toda a produção que os jovens realizaram ao longo dos anos. Também foi uma das lideranças que apoiou o registro da Arte Kusiwa como patrimônio imaterial do Brasil e do mundo.

Durante vários anos atuou como documentarista, registrando reuniões, intercâmbios e outros eventos importantes para os Wajãpi. Um dos produtos foi o filme Jane Moraita – Nossas Festas.

O garimpo ilegal, ameaça tão presente hoje em territórios indígenas da Amazônia, também foi pauta de suas lutas já a partir do final dos anos 1970, quando a atividade causou a morte de muitos de seus familiares por epidemia de sarampo. Uma década depois, Kasiripinã perdeu a primeira esposa e filhos por infecção de produtos deixados por garimpeiros.

Kasiripinã Waiãpi deixa uma esposa, quatro filhas, um filho, genros, nora, quinze netos e uma bisneta, que nasceu um dia antes de seu falecimento.

Kasiripinã Waiãpi junto à sua esposa. Além dela, ele deixa quatro filhas, um filho, genros, nora, quinze netos e uma bisneta, que nasceu um dia antes de seu falecimento. (Foto: Acervo Iepé)