Agentes Ambientais Indígenas aprofundam conhecimentos sobre manejo participativo de tracajás no Oiapoque

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Oficina, realizada na TI Uaçá, reuniu 24 AGAMINs para avaliar métodos de coleta de dados e planejar ações de manejo para a temporada de 2026

Texto: Estefany Furtado

Participantes da oficina de manejo participativo de tracajás receberam certificados ao final da atividade (Foto: Estefany Furtado – Iepé)

Há mais de duas décadas, indígenas do Oiapoque realizam o manejo e conservação de tracajás nos rios e lagos da região, contribuindo para a conservação da espécie de quelônio, muito comum nas comunidades indígenas. Esse trabalho é conduzido pelos Agentes Ambientais Indígenas (AGAMINs) que, entre os dias 18 e 20 de agosto, participaram de uma oficina de manejo participativo para reciclar conhecimentos, avaliar métodos de coleta de dados e estruturar o planejamento das ações de manejo para a temporada de 2026.

A atividade foi realizada pelo Iepé em parceria com a Articulação Indígena do Rio Oiapoque (AIRO), com apoio do Iepé, e reuniu, na Terra Indígena (TI) Uaçá, 24 AGAMINs das TIs Uaçá, Galibi e Juminã, em Oiapoque/AP. A iniciativa fortalece o projeto Kamahad Tauahu Nukagmada Mewká, que pode ser traduzido como “Meu Amigo Tracajá”, nas línguas Kheoul e Parikwaki. Por meio desse projeto, mais de 16 mil filhotes já foram soltos no território.

“A ação começou quando a população da espécie começou a desaparecer dos rios da região”, relembra o AGAMIN Gilmar Nunes. Por isso, segundo ele, os primeiros ninhos começaram a ser transplantados em 2005, com o apoio inicial da The Nature Conservancy (TNC) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Esta última oficina contou com a contribuição da Universidade Federal do Pará (UFPA), representada pelo zoólogo Luis Eduardo Ribeiro, que destacou a relevância cultural, alimentar e medicinal dos quelônios, enfatizando o conhecimento ancestral presente na ecologia da espécie e lembrando que “a mãe tracajá sempre sabe o local ideal para construir seu ninho”.

Atividade de campo foi realizada na Aldeia Japiim – TI Uaçá (Foto: Estefany Furtado – Iepé)

A atividade foi executada com base em objetivos voltados ao fortalecimento técnico, metodológico e de articulação comunitária para o monitoramento dos tracajás no Oiapoque. A primeira etapa, de diagnóstico, provocou os AGAMINs a refletir sobre como o manejo é realizado atualmente pelas comunidades, levantando o número de pessoas envolvidas, tipo e período de manejo, além de aspectos logísticos, áreas-chave para a desova e principais dificuldades enfrentadas pelos monitores.  

Também foram discutidas a atualização e avaliação dos métodos de manejo, incluindo como são tratados os dados coletados historicamente e a relação de custo-benefício. Em seguida, os agentes elaboraram, de forma coletiva e participativa, um planejamento concreto de ações a ser executado já na temporada de 2026, com foco especial no engajamento comunitário e proteção dos ninhos.  Por fim, avaliaram juntos as fichas de campo preenchidas em anos anteriores para diagnosticar as principais dificuldades e inconsistências e formular coletivamente ajustes metodológicos necessários para otimizar o registro científico dos dados.

Atividade prática incluiu medição da  profundidade dos ninhos (Foto: Estefany Furtado – Iepé)

Um dos destaques desta edição foi o estabelecimento de consensos e acordos práticos cruciais para o plano de trabalho AGAMIN 2026/2027, com a atualização da ficha de coleta de campo (com inserção de novos parâmetros de localização e status de ninhos) e o lançamento de dois importantes projetos-piloto de monitoramento comunitário direto nas praias das aldeias Japiim e Flamã, visando otimizar a conservação, reduzindo o transplante apenas a casos de risco extremo, e engajando mais as comunidades locais, fortalecendo a autonomia das aldeias na vigilância de suas praias.

Outro destaque que ficou evidente na oficina foi a presença das AGAMINAs, que ganha cada vez mais força no território. Mulheres das etnias Karipuna e Galibi Marworno vêm ampliando seu espaço nas formações, pesquisas e atividades de manejo, consolidando a liderança feminina na defesa e proteção da biodiversidade.

O ciclo de conservação

O ciclo de conservação é contínuo, mas se intensifica em setembro e outubro, período de desova das fêmeas, quando os AGAMINs e AGAMINAs coletam os ovos e os transplantam para berçários protegidos nas aldeias. Cerca de dois meses depois, entre novembro a janeiro, é o período de eclosão dos ovos, quando os filhotes permanecem sob os cuidados dos agentes até a cicatrização umbilical completa, o que reduz a vulnerabilidade a predadores.

Em fevereiro e março os filhotes são devolvidos à natureza em áreas próximas aos pontos de coleta. O momento envolve estudantes e comunitários, transformando-se em uma aula aberta de educação ambiental e uso sustentável dos recursos para as futuras gerações.

Participantes no Centro de Formação Domingos Santa Rosa – TI Uaçá (Foto: Elson Vidal – Iepé)

A oficina foi realizada pelo Iepé, com apoio da Rainforest Noruega. A Associação Indígena do Rio Oiapoque (AIRO) também está apoiando o manejo, com insumos para a etapa de coleta dos ovos. O projeto é vinculado ao Edital Teia da Sociobiodiversidade, realização do Fundo Casa Socioambiental e da Caixa Econômica Federal.

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