Encontro sobre cadeias produtivas discute fortalecimento econômico de comunidades

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O Primeiro Encontro Geral de Produtores Indígenas e o Intercâmbio da Cadeia de Valor foi uma iniciativa da FOIRN em parceria com a RCA.
Foto: Rede Wayuri

Texto: Luiza Nobre

“A gente não quer transformar os nossos produtores indígenas em empresários. Eles produzem, mas não é nossa intenção que parem de caçar, pescar e de ter o seu modo de vida tradicional. Tem que ter cuidado com as demandas de produção em larga escala, para não impactar o modo de vida das comunidades,” Ianukula Kaiabi Suia, presidente da Associação Terra Indígena Xingu (ATIX).

A Rede de Cooperação Amazônica (RCA), em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), realizou de 11 a 14 de outubro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), o Intercâmbio de Cadeias Produtivas da Sociobiodiversidade no Rio Negro, com apoio da Fundação Rainforest da Noruega (RFN). 

Durante o intercâmbio, membros das diferentes organizações da RCA participaram do Primeiro Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro, realizado pela FOIRN em conjunto com o Instituto Socioambiental (ISA), com o objetivo de fortalecer as cadeias produtivas já mapeadas na região.

O grupo de organizações que compõem a RCA reuniu 24 pessoas. Elas representavam o Instituto Iepé, a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), a Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM), a Associação Terra Indígena Xingu (ATIX), a Hutukara Associação Yanomami, o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), o Conselho das Aldeias Wajãpi – Apina, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), o Organização Geral Mayuruna (OGM) e a Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC).

As atividades iniciaram no dia 11 de outubro com visitas às sedes das organizações membros da RCA em São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas. Primeiro o grupo foi conhecer a Casa do Instituto Socioambiental (ISA) no Rio Negro, onde foi recebido pela coordenação e equipe local. 

Depois foram na Casa Wariró de Produtos Indígenas do Rio Negro, marca coletiva das 23 etnias pertencentes ao Alto e Médio do Rio Negro, criada pela FOIRN. Ali, os membros da RCA foram recebidos por sua gerente e pela coordenadora de vendas, que apresentaram as linhas de produtos e a logística de escoamento das artes dos povos do Rio Negro para outras regiões do país. 

Visita à nova sede da FOIRN em São Gabriel da Cachoeira (AM), em que o grupo da RCA foi apresentado ao trabalho de cada departamento, com destaque para o Fundo Indígena do Rio Negro. Foto: Patricia Zuppi / RCA.

Ao final do primeiro dia, os convidados da RCA realizaram uma visita à nova sede da FOIRN, onde foram recebidos com uma apresentação detalhada sobre as linhas de atuação e funcionamento de cada departamento.

No segundo dia de intercâmbio, eles tiveram a oportunidade de conhecer o projeto de Turismo de Base Comunitária do Rio Marié, na comunidade Tapuruquaramirim, na Terra Indígena Médio Rio Negro II, iniciativa que há nove anos beneficia 14 comunidades da Associação das Comunidades Indígenas do Baixo Rio Negro (ACIBRN). 

As lideranças locais, junto com Marivelton Baré, presidente da FOIRN, apresentaram o histórico do Projeto Marié e compartilharam como foram estabelecidos os acordos coletivos, a articulação da Câmara Técnica de Gestão do projeto e o grupo de vigilância e monitoramento da região. Junto às lideranças de outras organizações da RCA, eles refletiram sobre os desafios e soluções alcançadas coletivamente para a regularização da pesca esportiva no Rio Negro.

O presidente da ATIX, Ianukula Kaiabi Suia, comentou que o turismo no Xingu é um item no Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) deles ainda sem consenso. “A experiência de ter vindo para cá nos dá base para conversar sobre este assunto complicado no Xingu. Para nós, o peixe é sagrado e não se deve mexer com ele. Mas como já tem comunidades fazendo a pesca esportiva é importante regularizar, pois não basta consultar apenas a própria comunidade envolvida, já que a pesca esportiva impacta todo o entorno e o território. É preciso regulamentar e consultar todos os afetados”, disse.

Nos dias 13 e 14, o grupo participou do “Primeiro Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro”, realizado na Maloca da FOIRN, em que foram compartilhadas as iniciativas de cadeias produtivas ligadas à produção e comercialização de alimentos e artesanatos e de turismo de base comunitária nas diferentes regiões e Terras Indígenas de alcance da FOIRN e das organizações da RCA.

Dieimisom Sfair dos Santos e Daniela Felício, representantes da AMIM, compartilhando a iniciativa do UASEI, a produção de açaí, artesanato e a Feira Comunitária. Foto: Patricia Zuppi / RCA.

Ianukula Kaiabi Suia, junto a Yakuwipu Waurá, que é representante do Movimento de Mulheres Indígenas do Território Indígena do Xingu, e a Fabrício dos Santos, representante da equipe técnica do ISA para Cadeias Produtivas do ISA Xingu, apresentaram o processo de produção e comercialização do Mel do Xingu, do Óleo de Pequi, da Pimenta Kisedje, entre outras iniciativas desenvolvidas. Eles refletiram também sobre os desafios em relação à estruturação do comércio de artesanato xinguano e da regulamentação da pesca esportiva no território.

Os agrônomos indígenas, membros da equipe do Departamento de Gestão Territorial e Ambiental do Conselho Indígena de Roraima, Giofan Mandulão e Renan Rodrigues, apresentaram o trabalho do CIR em relação à criação de gado orgânico, dos viveiros de sementes tradicionais resistentes para distribuição e do apoio às roças das comunidades. Também abordaram o projeto de piscicultura, entre outras iniciativas voltadas às cadeias produtivas que estão consolidadas nos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das TIs de Roraima.

José Marcondes Puyanawa, presidente da Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre, partilhou como se deu historicamente a formação e o trabalho desses agentes junto às suas comunidades em uma parceria com a Comissão Pró Índio do Acre (CPI-Acre), organização que também faz parte da RCA. A partir desta experiência consolidada de formação e atuação dos agentes agroflorestais indígenas no estado, os representantes da Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC), Eldo Shanenawa e Edilene Barbosa, demonstraram como as cadeias produtivas são abordadas nos processos de educação escolar intercultural indígena.

“A maior universidade do mundo é este tipo de lugar, este tipo de conhecimento que estamos vendo neste intercâmbio. Isso é aprendizado de verdade”, destacou Eldo Shanenawa, mestre em pedagogia intercultural e coordenador da OPIAC.

Salomão Kahyana, representando o Iepé, apresenta o projeto de Castanha no Território Wayamu, no Pará. Foto: Patricia Zuppi / RCA.

O coordenador da Associação Wajãpi Terra, Ambiente e Cultura (AWATAC), Kawiri Waiãpi, e a representante de mulheres Wajãpi, Iriwa Waiãpi, apresentaram as iniciativas de cadeias produtivas em andamento na TI Wajãpi, no Amapá, com destaque para as roças e as oficinas de fortalecimento da produção de artesanato tradicional. 

“O Fundo de Artesanato Wajãpi tem um objetivo, que é dar apoio para compra de alguns equipamentos para que as pessoas continuem dentro do limite, fazendo a  vigilância do território. Em 2014, por exemplo, compramos o motor de popa com este fundo de artesanato”, pontuou Kawiri. Essa ocupação do limite a que ele se refere é uma importante iniciativa de governança do povo wajãpi para coibir invasões ao território.

Do estado do Amapá, estiveram também presentes os representantes do Oiapoque, Dieimisom Sfair dos Santos e Daniela Felício, que apresentaram o Empório Uasei, iniciativa que reúne produtos da Sociobiodiversidade dos Povos Indígenas do Oiapoque, como açaí, tucupi, cestaria e outros artesanatos. 

O intercâmbio se encerrou com a Feira dos Produtores Indígenas do Rio Negro e apresentações culturais dentro da casa do saber da Foirn, com atividades abertas ao público externo para a comercialização dos produtos.

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