Texto: Angélica Queiroz

Entre os dias 6 e 9 de julho, a Associação dos Povos Indígenas Trombetas-Mapuera (APITMA) reuniu, na Aldeia Tawana, às margens do rio Mapuera, caciques, cacicas e lideranças de 21 aldeias das Terras Indígenas Kaxuyana-Tunayana, Trombetas-Mapuera e Nhamundá-Mapuera para a realização de sua VII Assembleia Geral. Ao longo de quatro dias, os participantes trocaram experiências, avaliaram os desafios enfrentados pelas comunidades e debateram temas estratégicos para o fortalecimento da organização e dos povos que ela representa.
O encontro marcou a retomada da assembleia após um intervalo de dois anos — a última havia acontecido em 2023, e elegeu a atual diretoria. A assembleia também evidenciou o amadurecimento da APITMA, com a apresentação dos resultados alcançados e a prestação de contas das ações desenvolvidas no período, balanço que deixou claro o fortalecimento da capacidade da associação de captar e executar recursos, com transparência e em diálogo constante com as lideranças do território.
A partir dessa avaliação, as lideranças discutiram como a organização pode se estruturar para dar continuidade a esse trabalho, mantendo o alinhamento com as comunidades e ampliando a participação nos processos de acompanhamento e decisão. “Foi uma reunião muito colaborativa”, celebrou o presidente da APITMA, Roque Yaxikma Wai Wai. “Esse encontro nos possibilitou conversar sobre assuntos muito importantes para a nossa comunidade”, completou.
O cacique Luiz Carlos Xaraka, uma das principais lideranças da região do rio Mapuera, avalia que a assembleia trouxe importantes conquistas. “Foi a primeira vez que discutimos a prestação de contas e pudemos acompanhar os gráficos, que deixaram mais claro para todos o que está sendo feito. Agora, as lideranças podem levar essas informações para suas aldeias e compartilhá-las com quem não pôde participar”, afirmou.

Um dos destaques da pauta foi a discussão e aprovação do regimento interno da APITMA, com acordos em torno do apoio à comercialização de produtos da sociobiodiversidade e gestão de patrimônio, com a orientação da consultora Nefertiti Hass. “O regimento é uma grande conquista da associação, que pode inspirar as demais organizações indígenas do Programa Tumucumaque-Wayamu”, comentou uma das coordenadoras do Programa no Iepé, Leonor Valentino, que acompanhou a atividade.
“A assembleia também marcou o amadurecimento da parceria com o Iepé, com uma confiança cada vez maior no comprometimento da nossa equipe no trabalho de assessoria técnica”, completou Leonor.

Articulação de mulheres Keweyu
Durante o encontro, também foi discutida e oficializada a criação da articulação de mulheres batizada de Keweyu, em referência às saias frontais de miçangas ou de sementes, muito utilizadas pelas mulheres que vivem no rio Mapuera. A iniciativa reafirma o compromisso da APITMA com a valorização da participação feminina nos espaços formais de governança, acompanhando o papel fundamental delas para o bem-viver nas comunidades.

Com a nova articulação, as mulheres esperam viabilizar encontros dedicados exclusivamente às suas pautas, além de aumentar a participação política delas nos encontros já existentes e desenvolver projetos que promovam e valorizem seus conhecimentos tradicionais. A expectativa é, ainda, fortalecer a comercialização de seus produtos, somando forças com outras iniciativas de mulheres indígenas no Território Wayamu.

“Nossa assembleia foi muito importante para conversarmos sobre vários assuntos, incluindo a criação da nossa articulação, que vai ser importante para todas as mulheres da região porque nos fortalece. A gente sabe fazer os produtos, mas precisa dessa organização para nos apoiar”, comentou a secretária da APITMA, Elaide Tapuri Wai Wai.
Raimunda Kuhku Wai Wai, cacica da aldeia Inajá e uma das lideranças à frente da articulação de mulheres Keweyu, concorda: “Estamos precisando fortalecer nossas comunidades e já vi no exemplo da Associação das Mulheres Indígenas da Região do Município de Oriximiná (AMIRMO), da qual participo, que isso ajuda. É o que esperamos aqui também”.

A assembleia debateu ainda assuntos relacionados à gestão territorial, como ações de proteção no contexto da recente homologação da TI Kaxuyana-Tunayana, em diálogo com outras organizações indígenas do Território Wayamu. O rio Mapuera abriga atualmente 26 aldeias, distribuídas por três Terras Indígenas. Dessas aldeias, 10 encontram-se nos limites da TI Kaxuyana-Tunayana. “As lideranças da APITMA têm compreendido a importância de estarem cada vez mais afinadas com as lideranças e organizações vizinhas para fortalecer seus objetivos comuns”, explicou Leonor Valentino.
“Vim porque, desde muito tempo, participo dessas reuniões com todos aqui no rio Mapuera. Vim sozinho, ‘puxando a canoa’, mas não desisti, porque considero muito importante participar”, afirmou o cacique Shayakuma Tunayana, da aldeia Parawaku, localizada no alto curso do rio Trombetas e a três dias de viagem de canoa da aldeia Tawana.
A VII Assembleia Geral foi realizada pela APITMA com apoio do Iepé, da Nia Tero e do Bezos Earth Fund.


