Texto: Angélica Queiroz

No extremo norte do Pará, na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa e o Suriname, está uma das regiões mais ricas em patrimônio natural e cultural do planeta, onde se conectam terras indígenas e unidades de conservação. Para fortalecer a gestão integrada desse território, em 2024 foi criado o Programa Grande Tumucumaque, uma iniciativa dos Institutos Iepé e Imazon, em parceria com organizações indígenas locais Apitikatxi, Apiwa e Tekohara), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio).
O Programa se destaca por unir diferentes visões e formas de manejo em prol da proteção da floresta e do bem viver dos povos que nela habitam. Outro diferencial é sua duração de 15 anos, que permite planejar ações de longo prazo e alcançar transformações mais profundas. A seguir, destacamos cinco razões que tornam essa iniciativa tão importante:
1 | É o maior contínuo de floresta tropical protegida do mundo
O Grande Tumucumaque é o nome dado à paisagem formada por duas unidades de conservação (Reserva Biológica Estadual de Maicuru e Estação Ecológica Estadual Grão Pará) e três terras indígenas (Parque do Tumucumaque, Rio Paru d’Este e Zo’é). Com cerca de 10 milhões de hectares, o que equivale a 10 milhões de campos de futebol, essa imensa área constitui o maior conjunto contínuo de florestas tropicais protegidas do mundo. Rica em biodiversidade, abriga espécies únicas e serve de refúgio para muitos animais e plantas ameaçadas de extinção.

2 | Sua área é considerada uma paisagem legada
A área do Programa é reconhecida como uma paisagem legada, denominação dada pelo Legacy Landscapes Fund (LLF) — criador da iniciativa — a conjuntos de áreas protegidas de valor excepcional. Essas paisagens são estratégicas não apenas pela sua importância intrínseca, mas também por seu papel na conservação da biodiversidade, na proteção dos modos de vida e do bem-viver das comunidades locais e no enfrentamento da crise climática. O Grande Tumucumaque integra o grupo das 15 paisagens legadas selecionadas em todo o mundo, por meio de editais lançados pelo LLF e seus parceiros públicos e privados.

3 | Tem grande diversidade social e cultural
O Grande Tumucumaque abriga o território dos Zo’é, um povo de recente contato, falante de uma língua Tupi, e dois territórios de uma notável diversidade de povos da família linguística Karib, reconhecidos oficialmente como Aparai, Wayana, Tiriyó, Katxuyana e Txikiyana, mas que se identificam como descendentes de mais de 50 coletividades ou yanas distintos, revelando uma sociodiversidade muito maior do que aquela visível ao olhar externo. Essa rede de povos se estende para além das fronteiras brasileiras, conectando-se à Guiana, ao Suriname e à Guiana Francesa, e inclui também grupos em isolamento voluntário, especialmente vulneráveis.
Esses povos mantêm formas próprias de organização social, territorial e política, e práticas de manejo que sustentam modos de vida singulares. Por meio de antigas redes de troca, constroem uma identidade coletiva que é, ao mesmo tempo, diversa e compartilhada em um mosaico de saberes, línguas e histórias que expressa a riqueza de sua sociodiversidade. Após décadas de concentração em grandes aldeias, processo que levou ao enfraquecimento da diversidade linguístico-cultural e ao esvaziamento de vastas áreas, esses povos vêm retomando o padrão tradicional de pequenas aldeias dispersas e revitalizando línguas, rituais e conhecimentos.
Assim, apoiar o fortalecimento desses modos de vida, suas práticas de manejo e seus saberes não é apenas uma forma de garantir os direitos desses povos, mas também uma estratégia essencial para a conservação da floresta e da sociobiodiversidade dessa região única.

4 | É um mega-reserva com biodiversidade única
Essa paisagem legada está situada no Escudo das Guianas, uma formação rochosa muito antiga que abriga diferentes tipos de ambientes e uma biodiversidade extraordinária, incluindo cerca de 40% das 8 mil espécies de plantas conhecidas no mundo.
No território, encontra-se um verdadeiro santuário de árvores gigantes, que chegam a ultrapassar 70 metros de altura, como os angelins-vermelhos presentes na Reserva Biológica Estadual Maicuru e na Terra Indígena Tumucumaque. Nos arredores, na Floresta Estadual do Paru, está a maior árvore da América Latina e a terceira mais alta do mundo, com 88 metros.

Por sua extensão e importância, a região é considerada uma mega-reserva: uma vasta área de floresta protegida, fundamental para a sobrevivência de grandes animais, como onças e antas, e para a manutenção de processos naturais essenciais, como o ciclo da água, dos nutrientes e a regulação do clima. A área também abriga espécies emblemáticas e ameaçadas, como a onça-pintada, a harpia e o peixe-boi-da-Amazônia, além de aves e insetos ainda pouco estudados pela ciência.
Por esses motivos, entre as ações já em andamento do Programa está a realização de um monitoramento ambiental feito por pesquisadores do Imazon em colaboração com povos indígenas da região.
5 | Pode integrar o maior mosaico de áreas protegidas do mundo
As cinco áreas protegidas abrangidas pelo programa situam-se no interior de um bloco mais amplo, que inclui o vizinho Território Wayamu, composto por 4 Terras Indígenas, além de 10 Territórios Quilombolas titulados, 4 Unidades de Conservação federais, 7 estaduais e uma municipal. Localizado no extremo norte do Pará, esse conjunto totaliza cerca de 22,3 milhões de hectares.
Um dos objetivos do Grande Tumucumaque é fortalecer alianças entre os diversos atores e instituições desse amplo território, promovendo o planejamento de ações conjuntas em escala de mosaico. A perspectiva é que esse conjunto mais amplo seja reconhecido pelo Ministério do Meio Ambiente como o “Mosaico de Áreas Protegidas do Norte do Pará, por ocasião da COP-30, em Belém
Esse Mosaico representa uma inovação ao ser o primeiro mosaico no Brasil a incluir formalmente Territórios Quilombolas, ampliando a representatividade e visando maior alcance nas políticas públicas ambientais. Seu processo de construção resulta de mais de uma década de articulações, diálogos e consensos entre povos indígenas, comunidades quilombolas, gestores públicos e organizações da sociedade civil, o que lhe confere legitimidade e ampla adesão social. Quando oficializado, ele será o maior mosaico de áreas protegidas do mundo.

*O Programa Grande Tumucumaque é co-financiado pela Nia Tero e pelo Legacy Landscape Fund (LLF).


