Texto: Angélica Queiroz
No mês em que completa 23 anos, o Iepé é reconhecido internacionalmente por sua atuação na proteção, valorização e fortalecimento do patrimônio cultural imaterial dos povos indígenas do Amapá, do norte do Pará e das divisas de Roraima e Amazonas. Marina Kahn, presidente do Iepé e Lúcia Szmrecsányi, coordenadora do Programa Wajãpi, foram para Jeonju, na Coreia do Sul, para participar da cerimônia de premiação do Jeonju International Awards for Promoting Intangible Cultural Heritage (JIAPICH), realizada nesta quarta-feira (24/9). O trabalho do Iepé foi um dos três selecionados na edição de 2025, entre 90 organizações não governamentais de todos os continentes.

O JIAPICH é um prêmio oferecido pela cidade de Jeonju para indivíduos, comunidades e organizações não governamentais que se dedicam à salvaguarda e revitalização do patrimônio cultural imaterial em todo o mundo. Em sua 7ª edição, o prêmio é considerado relevante no cenário internacional por ser um dos poucos com foco específico nesse campo e por seu caráter global. Peritos da Unesco fazem parte do júri. O Centro de Estudos de Cultura Imaterial (CICS), ONG credenciada pela Unesco, com sede em Jeonju, é o principal organizador do evento.
Indicado pela Embaixada do Brasil na Coreia, o Iepé se candidatou e foi premiado. Além da homenagem, os vencedores recebem apoio financeiro, para fortalecer iniciativas voltadas à salvaguarda de patrimônios imateriais. Em um mundo em transformação acelerada, a visão da Unesco é de que não se trata de conservar, mas de permitir a renovação das tradições culturais e sua vitalidade ao longo das gerações.
Para o coordenador executivo do Iepé, Luís Donisete Grupioni, o recebimento deste prêmio é motivo de orgulho para toda a equipe do Instituto. “Ao longo dos anos temos desenvolvido diferentes estratégias para valorizar os patrimônios culturais materiais e imateriais indígenas, valorizando e fortalecendo diferentes modos de vida, de pensamento, de conhecimentos, de práticas, de organização e representação política dos povos indígenas onde atuamos. Buscamos incentivar a transmissão de conhecimentos entre gerações, para que laços fundamentais da tradição oral não se percam, possibilitando que os jovens tenham consciência da riqueza de seus patrimônios, que têm sido transmitido entre gerações, milenarmente”, afirmou. Para Marina Kahn, o prêmio representa o reconhecimento do forte vínculo entre a Amazônia e a vitalidade de suas culturas locais. As sociedades indígenas que ali vivem há milênios têm sido as responsáveis por sua preservação, o que comprovadamente traz benefícios climáticos globais.
O trabalho do Iepé para valorizar o patrimônio cultural material e imaterial indígena
Desde sua criação, o Iepé vem desenvolvendo diversas estratégias para valorizar o patrimônio cultural material e imaterial dos povos indígenas. Para isso, o Iepé realiza projetos em mais de 300 comunidades, sempre respeitando suas formas de governança e contribuindo para o fortalecimento de seus saberes. Atualmente, essas ações alcançam uma população estimada em mais de 17 mil indígenas.
Além disso, o Iepé apoia as comunidades no registro de seus modos de fazer, saber, ver, trocar e falar, e subsidia suas iniciativas para obtenção de reconhecimento oficial dessas manifestações como patrimônio cultural nacional e internacional. Antropólogos do Instituto têm participado de diversos processos de patrimonialização de saberes imateriais. A produção de livros e artigos sobre o tema é mais um esforço do Iepé nesse sentido.
Em 2003, por exemplo, o Iepé contribuiu para o reconhecimento da arte gráfica Wajãpi como patrimônio imaterial do Brasil e sua inscrição na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco. Atualmente, está apoiando associações indígenas em pedidos junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que supervisiona o registro de bens culturais de natureza imaterial no Brasil. Entre as artes em processo de reconhecimento estão os grafismos dos povos Wayana e Aparai, pintados e trançados em diversos artefatos, e o txama txama, tipo de coroa feita com penas de gavião-real e arara pelos povos Kahyana e Katxuyana.
Ao longo dos anos, o Iepé tem promovido diversos cursos e seminários abordando o patrimônio imaterial, com o objetivo de estimular a troca de experiências entre lideranças indígenas sobre a valorização de seus saberes. Além disso, o Instituto mantém como prioridade o fortalecimento e a preservação das línguas indígenas, já que atua junto a povos falantes de diferentes línguas das famílias Arawak, Karib e Tupi.
O trabalho do Iepé também busca contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas nacionais que promovam o reconhecimento do patrimônio cultural material e imaterial indígena. Além de produzir diversas publicações especializadas sobre o tema, antropólogos do Instituto participam de eventos acadêmicos no Brasil e no exterior, abordando aspectos do patrimônio cultural dos povos indígenas com os quais atuamos. De forma semelhante, e com atenção à divulgação desse patrimônio, os profissionais do Iepé têm coordenado importantes exposições etnográficas e de arte indígena realizadas nos últimos anos, tanto no país quanto fora dele.
No âmbito internacional, o Instituto atua em redes, parcerias interinstitucionais, coletivos e colaborações para defender os direitos culturais dos povos indígenas, incluindo o respeito e a proteção ao seu patrimônio cultural. Desde 2024, o Iepé é uma das organizações da sociedade civil credenciadas para exercer funções consultivas na Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial.


