Óleo essencial de breu: oficina amplia possibilidades para extrativistas no Amapá

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A capacitação dá continuidade ao intercâmbio e oficinas do projeto Floresta+ e busca avaliar a viabilidade da produção no Alto Araguari

Texto: Maria Silveira

Resina de breu branco da Floresta Estadual do Amapá (Foto: Maria Silveira – Iepé)

Integrantes da Associação de Mulheres Sementes do Araguari, no Amapá, participaram nos dias 5 e 6 de março de uma capacitação para aprender o passo a passo da produção de óleo essencial a partir de matérias-primas da floresta. O primeiro teste foi realizado com breu branco, uma resina que se forma ao redor da árvore de breu e ocorre em abundância na Floresta Estadual do Amapá, sendo utilizada pela comunidade em diferentes formas.

A atividade marca um novo passo para a associação, que já possui em sua sede uma pequena usina voltada para a extração de óleos vegetais de andiroba e pracaxi. Com a introdução de um novo equipamento de destilação, o grupo passa agora a testar a produção de óleos essenciais, ampliando as possibilidades de uso da biodiversidade local.

Participantes da oficina de destilação de óleo essencial de breu branco (Foto: Maria Silveira – Iepé)

Potencial da sociobiodiversidade

“O óleo essencial agrega muito valor, é quase uma floresta concentrada em aroma. A destilação é um meio de valorizar um produto que já existe na floresta e oferecer algo terapêutico, feito de forma artesanal e em pequena escala.”, explica a agrônoma Jaqueline Evangelista Dias, consultora que, junto com Lurdes Cardozo Laureano, mediou a oficina para a associação.

Durante a oficina, os participantes acompanharam o processo de destilação da resina. Na primeira etapa é obtido o hidrolato, também chamado de água aromática, que carrega o aroma intenso do breu e pode ser utilizado como body splash, perfume ou em produtos de limpeza e cuidados com a pele. Após a separação entre água e óleo, o óleo essencial pode ser usado em aromaterapia ou como ingrediente na produção de sabonetes, velas, óleos corporais e cremes, itens que a associação já produz.

Além do potencial produtivo, o breu também tem importância cultural para os moradores da região. A resina é considerada “encantada” e aparece em histórias transmitidas  de geração em geração. Uma delas diz que, ao passar por uma árvore de breu, é preciso dar um pequeno golpe de terçado no tronco, caso contrário, ao retornar pelo mesmo caminho, a pessoa poderia não enxergá-la novamente. Tradicionalmente, o breu também é usado para calafetar embarcações, vedando frestas em canoas e barcos. No processo de destilação, além do óleo essencial e do hidrolato, a resina que permanece na dorna pode ser utilizada nesse tipo de reparo.

A partir dessa experiência, a associação pretende realizar estudos para compreender melhor os usos do hidrolato e do óleo essencial de breu (Foto: Douglas Serrão – Iepé)

“Além da gente querer clientes novos, a gente quer que ajude na produção. Se der pra usar nos produtos, eles vão ficar ainda mais cheirosos”, comenta a associada Rosângela Mota.

O óleo essencial de breu é considerado um produto raro entre os óleos da flora brasileira. A coleta da resina não causa impacto direto às árvores e pode ser realizada dentro de estratégias de manejo sustentável.

Nos testes realizados durante a oficina, 10 quilos de breu renderam cerca de 85 ml de óleo essencial. Com uma resina mais nova que apresenta menor presença de água, o rendimento chegou a aproximadamente 120 ml utilizando a mesma quantidade de matéria-prima.

Para os associados, a possibilidade de produzir óleo essencial também abre caminho para melhorias na comercialização e no valor dos produtos. “Queremos conseguir embalagens melhores, que já tenham o Selo Amapá e código de barras. O óleo pode ajudar a trazer esse tipo de melhoria e mais investimento para a associação”, afirma Rosalva Mota, secretária da associação.

Biocosméticos da Associação de Mulheres Sementes do Araguari (Foto: Alessandra Lameira – Iepé)

Continuidade de intercâmbio e formação

A capacitação é uma continuidade de atividades iniciadas no âmbito do projeto Floresta+, que ao longo de cinco anos apoiou processos de formação e fortalecimento produtivo. Em novembro de 2025, parte dos associados participou de um intercâmbio na Mini Usina de Óleos da Associação Agroextrativista da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Uatumã, no Amazonas.

A experiência motivou as participantes a testar a produção de óleos essenciais em seu próprio território e avaliar a viabilidade dessa nova cadeia produtiva no Alto Araguari. Como explica Rosenilda Souza Mota, vice-presidente da associação: “Fui no intercâmbio e voltamos muito interessadas nesse trabalho. Agora queremos incentivar o restante da associação a participar dessa produção.”

Durante a atividade, também foi realizada uma reunião com representantes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e do Ministério do Meio Ambiente, que acompanharam a oficina e o andamento do projeto Floresta+.

Essa atividade foi financiada pelo o projeto Floresta+ uma iniciativa do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças do Clima (MMA), em parceria com o PNUD Brasil e financiado com recursos do GCF.

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