Texto: Angélica Queiroz

Entre os dias 2 e 4 de junho, no Museu Britânico, em Londres, representantes dos povos Katxuyana e Kahyana conduziram uma programação histórica de reconexão com parte de seu patrimônio cultural preservado há décadas em acervos europeus. O encontro reuniu lideranças indígenas, pesquisadores indígenas e não-indígenas, curadores, representantes diplomáticos e instituições parceiras em torno de uma questão central para esses povos: o direito de reencontrar, interpretar e atualizar os sentidos de seus próprios pertences.

O evento “Da Amazônia aos Museus: Patrimônio e Propriedade dos Povos Katxuyana e Kahyana”, que reuniu lideranças e pesquisadores indígenas, pesquisadores das instituições, curadores e parceiros institucionais, integra o projeto colaborativo “Povos indígenas e museus: reconectando os Katxuyana e Kahyana com seu patrimônio cultural”. A iniciativa foi proposta pelas lideranças e pesquisadores indígenas e desenvolvida pela Associação Indígena dos Povos Katxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK), em parceria com o Iepé e em colaboração com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e com o Santo Domingo Centre of Excellence for Latin American Research (SDCELAR), do Museu Britânico. O projeto foi contemplado em chamada pública lançada pelo Conselho Britânico com apoio do Instituto Guimarães Rosa, no âmbito do Ano Cultural Brasil/Reino Unido 2025-26.
Reencontro com antepassados, pertences e memórias
A delegação brasileira que viajou a Londres reuniu lideranças e pesquisadores indígenas e representantes de instituições diretamente envolvidas no processo de reconexão com os acervos, como a AIKATUK, o Iepé e o Conselho Britânico. Nos primeiros dias de junho o grupo participou de reuniões com a equipe do Museu Britânico, visitou a Galeria das Américas e teve acesso à reserva técnica da instituição, onde estão guardados objetos Katxuyana e Kahyana não expostos ao público, entre eles uma canoa Katxuyana e Kahyana confeccionada com entrecasca de madeira.

Durante a visita, as lideranças reconheceram nos objetos a presença de seus antepassados. Os artefatos foram compreendidos como pertences vivos, capazes de reativar memórias, cantos, práticas e conhecimentos que resistiram a deslocamentos, silenciamentos e longas distâncias. Esse sentido apareceu de forma marcante na fala de Neide Imaya Wara Kahyana, historiadora e pesquisadora de sua própria língua, cultura e história. Ao agradecer o reencontro com os objetos, ela destacou que os museus que os guardaram também podem ajudar os povos detentores a retomar práticas afetadas pelo afastamento de seus territórios. “Claro que a gente tem memória, mas o mundo de vocês é diferente, vocês trabalham muito com documentos, então é bom ter tudo registrado”, afirmou.
Os Katxuyana e Kahyana foram retirados de seu território durante a ditadura militar e só agora, com a homologação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, durante a COP 30 em 2025, tiveram reconhecido o seu direito de voltar. Essa história foi lembrada por Angela Kaxuyana, do povo Kahyana, liderança da delegação e uma das principais vozes do movimento de retomada territorial, que destacou que, apesar da violência, seus povos permaneceram na resistência e “com a missão de manter vivos os inúmeros yanas (povos) da região”.

O txamatxama como presença, memória e retomada
O ponto alto da programação foi a montagem ritual de um txamatxama, artefato de grande importância para os Katxuyana e Kahyana, associado à espiritualidade, aos cantos, às festas, à transmissão de conhecimentos e à própria identidade. Um dos mais de 100 objetos Katxuyana e Kahyana preservados no Museu Britânico há mais de meio século é justamente um txamatxama.
Durante o evento, dois novos txamatxama foram doados ao museu, acompanhados de artefatos que compõem seu contexto de uso, como vestimentas de folhas de buriti, flautas utilizadas pelos pajés, plumas e abanos. Segundo as lideranças, os novos objetos foram deixados para fazer companhia aos que já estavam sob guarda da instituição.

Ao entregar os dois novos txamatxama ao museu, Juventino Pesirima Kaxuyana dirigiu-se ao exemplar mais antigo como a um parente que permaneceu muito tempo distante: “papai, agora estamos aqui e trouxemos nossa existência para perto de ti. Você esteve muito tempo só, aqui perdido nesse mundo tão distante, mas finalmente agora estamos ligados na presença dos seus netos aqui neste txamatxama”. Essa fala sintetiza a força do momento.
Com a doação dos novos objetos, a coleção ganhou novos vínculos com os povos aos quais suas histórias pertencem. Os txamatxama levados a Londres passaram a fazer companhia aos pertences já preservados no museu, restabelecendo relações entre gerações, antepassados e descendentes.
Juventino lembrou que a busca por objetos espalhados pelo mundo faz parte de um processo maior de retomada territorial, que culminou na homologação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana. Segundo ele, o txamatxama “não foi inventado pelo homem, mas sim pelos espíritos e pajés. Por isso temos muito respeito por ele”, afirmou.
Mário Kahyana, um dos poucos conhecedores atuais dos cantos, práticas e saberes relacionados ao txamatxama, liderou a montagem ritual. Esta foi a sua segunda viagem a Londres no âmbito do projeto, depois de integrar a primeira visita técnica ao Museu Britânico, em setembro de 2025. Em sua fala, ele apresentou os objetos levados ao museu e agradeceu a oportunidade de reencontrar parte da história de seu povo.

Angela Kaxuyana destacou que o projeto ocorre em um momento histórico para seu povo. Segundo ela, a reconexão com os acervos museológicos se soma a um processo mais amplo de voltar para casa, recompor vínculos e reafirmar a existência de muitos Yana. “Tivemos que lutar 23 anos para que o Estado reconhecesse nosso direito originário. Esse projeto é um dos projetos mais importantes de todas as nossas vidas pelo seu significado de força, reconexão e o significado de sermos Yana”, afirmou.
Para a liderança, o txamatxama precisa ser compreendido junto com a retomada do território. Os pertences, os cantos, as práticas e a terra fazem parte de uma mesma linha de continuidade. Segundo ela, aquilo que sobrevive nos museus hoje retorna como força para novas gerações, não como memória congelada, mas como parte viva de um movimento de afirmação cultural, espiritual e política.
“Comovente e poderoso”
O evento no dia 4 de junho discutiu o papel contemporâneo das coleções historicamente deslocadas de seus territórios de origem. Na abertura, Louise de Mello, diretora do SDCELAR, ressaltou que o formato da mesa foi escolhido por criar um espaço horizontal de troca de conhecimentos, diálogo e escuta. Para ela, a atividade reuniu diferentes sistemas de conhecimento em uma conversa que expressa o espírito colaborativo do projeto.
O embaixador do Brasil no Reino Unido, Antonio Patriota, também presente, destacou que esse foi um momento histórico e que a diplomacia brasileira está muito atenta aos povos da Amazônia e dos países vizinhos numa agenda que inclui o contato entre pessoas e culturas. “Hoje o Brasil está comprometido, mais do que nunca, em incluir a voz dos indígenas também na diplomacia”, informou. “Encontros como o de hoje contribuem para que eu, como brasileiro, seja menos um estrangeiro em meu próprio país”, completou.

“Quero destacar o quanto é comovente e poderoso para todos nós ter a oportunidade de conhecer vocês e compreender um pouco da sua cultura”, afirmou a diretora de artes do Conselho Britânico, Ruth Mackenzie. “Uma das nossas prioridades, enquanto Conselho, é apoiar comunidades na redescoberta de seus patrimônios, porque entendemos que eles estão profundamente ligados aos territórios de origem. Esta casa ajudou a preservar essa herança para o presente e para o futuro”, disse. Ruth destacou ainda que o encontro, assim como a trajetória dessas pessoas e dos objetos que hoje integram coleções museológicas, faz parte de um legado compartilhado.
Em sua fala, Denise Fajardo, coordenadora do Programa Tumucumaque-Wayamu no Iepé, agradeceu e homenageou as lideranças indígenas presentes em Londres. “É por eles, com eles e pelos povos que representam que este projeto existe”, afirmou, lembrando a relação de décadas, baseada em compromisso, amizade, confiança e parceria constante. “A presença deles aqui nos coloca diante de detentores de autoridade, conhecimento, memória e continuidade. Essa é a razão pela qual este projeto é tão importante para o Iepé. Ele abre a possibilidade de que coleções guardadas longe dos territórios voltem a se conectar com as pessoas, os rios, os cantos, as narrativas e os mundos de onde vieram”.
Assista ao evento completo no Youtube do Iepé:
Uma trajetória construída por muitas mãos
O projeto também contou com a colaboração de antropólogas que, em diferentes momentos, tiveram suas trajetórias acadêmicas e profissionais marcadas pela convivência com os povos Katxuyana e Kahyana. Denise Fajardo, Luísa Girardi, Manuella Sousa e Adriana Russi chegaram a essa história por caminhos distintos, com perguntas e contribuições próprias, mas compartilham o compromisso de colaborar com os projetos coletivos desses povos e de construir pontes entre territórios, universidades, museus e instituições parceiras.
As coleções hoje preservadas em museus no Brasil e na Europa incluem arte plumária, cestarias, objetos rituais, adornos e utensílios de uso cotidiano, reunidos ao longo do século XX. Muitas peças foram coletadas entre as décadas de 1940 e 1950 e permanecem espalhadas por instituições na Alemanha, Dinamarca, Noruega e Reino Unido. Um inventário preliminar realizado por Adriana Russi identificou mais de 500 artefatos atribuídos aos Katxuyana em acervos europeus, incluindo exemplares do txamatxama.

Para Luísa Girardi, consultora do Programa Tumucumaque-Wayamu do Iepé e integrante da delegação, a reconexão com essas coleções integra processos mais amplos de continuidade cultural, fortalecimento político e autodeterminação indígena. “Ao criar espaços de reconexão, diálogo e interpretação conduzida pelos próprios povos indígenas, o projeto contribui para os debates internacionais em curso sobre o futuro das coleções museológicas, o pertencimento cultural e o papel dos museus em relação a bens indígenas historicamente deslocados de seus territórios”, afirmou.
Próximos passos
As atividades do projeto seguem no Brasil com a preparação de uma exposição colaborativa no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. Concebida por meio de um processo curatorial compartilhado entre pesquisadores indígenas, artistas, anciãos e instituições parceiras, a mostra reunirá coleções etnográficas históricas preservadas pelo museu e artefatos contemporâneos produzidos em oficinas realizadas nos territórios indígenas.
Também está em preparação uma publicação bilíngue com reflexões, depoimentos, fotografias e pesquisas colaborativas desenvolvidas ao longo da iniciativa. O material deverá registrar as relações entre povos indígenas, museus, memória, cultura material e território, destacando vozes e perspectivas indígenas sobre patrimônio, continuidade e transformação cultural.
O encontro em Londres foi, assim, mais uma etapa de um caminho maior. Um caminho em que museus podem se tornar espaços de escuta, reencontro, colaboração e reparação. Para os Katxuyana, Kahyana e Yaskuryana, a história do txamatxama é inseparável da história da retomada territorial, cultural e política dos povos Yana. E, no Museu Britânico, essa história voltou a ser cantada, vestida, narrada e colocada em movimento.
“Povos indígenas e museus: reconectando os Katxuyana e Kahyana com seu patrimônio cultural”
O projeto “Povos indígenas e museus: reconectando os Katxuyana e Kahyana com seu patrimônio cultural” tem como foco a reconexão dos povos Katxuyana e Kahyana com coleções etnográficas atualmente preservadas em museus no Brasil e na Europa, especialmente no Museu Britânico, em Londres, e no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém.
Reunidas ao longo do século XX, essas coleções incluem arte plumária, cestarias, objetos rituais, adornos e utensílios de uso cotidiano que permanecem profundamente conectados às histórias, aos territórios, aos sistemas de conhecimento e às práticas materiais dos povos aos quais pertencem. Luisa Girardi, consultora do Programa Tumucumaque-Wayamu do Iepé, que está acompanhando o projeto, explica que a reconexão com essas coleções museológicas constitui parte de processos maiores de continuidade cultural, fortalecimento político e autodeterminação indígena.
Segundo ela, o evento realizado em Londres integra esse processo colaborativo mais amplo. “Ao criar espaços de reconexão, diálogo e interpretação conduzida pelos próprios povos indígenas, o projeto contribui para os debates internacionais em curso sobre o futuro das coleções museológicas, o pertencimento cultural e o papel dos museus em relação a bens indígenas historicamente deslocados de seus territórios, reforçando também os vínculos colaborativos entre instituições, pesquisadores e organizações indígenas do Brasil e do Reino Unido”, afirma Luisa.



