Texto: Angélica Queiroz

Os povos indígenas que habitam o Amapá, o norte do Pará e as regiões de divisa com os estados do Amazonas e de Roraima possuem culturas, línguas e modos de vida próprios. Apesar dessa diversidade, há registros de que, há pelo menos 300 anos, eles mantêm relações de troca, convivência, comércio, alianças políticas, casamentos e práticas rituais compartilhadas, construindo uma história comum.
São mais de 300 comunidades, distribuídas em 10 Terras Indígenas, em um território de mais de 13 milhões de hectares. O Iepé é parceiro desses povos e de suas organizações representativas desde 2002, por meio de seus programas, e conta parte dessa história, apresentando um panorama sobre esses modos de vida na exposição “Somos da Terra: Povos Indígenas do Amapá e norte do Pará”, recém-inaugurada em Macapá.
Marina Kahn, presidente do Iepé e uma das curadoras da exposição, explica a ideia: “nosso ponto de partida foi explicitar a diversidade de povos indígenas que habitam a região em que atua o Iepé. Ou seja, nomeá-los, mostrar onde estão, evidenciar suas diferenças, demonstrar que vivem bem da forma como se organizam, moram, se relacionam conosco e entre si”.
A exposição procurou escapar dos conceitos de “cultura” e “natureza”, ou ainda de “luta” e “ancestralidade” que, segundo ela, mais generalizam do que explicam. “Neste sentido, tratamos de abordar sinteticamente sobre temas como trabalho, produção, línguas, alimentação, economia, conhecimentos, saúde, com o cuidado de não comunicar uma visão estereotipada e uniformizadora geralmente atribuída às sociedades indígenas”, afirma Marina Kahn.
A exposição
Organizada em banners com fotografias e textos breves, a mostra é escrita em primeira pessoa do plural, criando a sensação de uma conversa direta com os próprios indígenas, que compartilham suas formas de viver, pensar e se relacionar com o território. “Para nós, existe alma em tudo: nos humanos, nos animais, nas plantas, nas montanhas..”, diz um dos banners.
A cada nova apresentação, o observador descobre um pouco mais sobre o modo de vida desses povos, que vivem da caça, coleta e pesca e tem suas próprias estratégias para produzir o que precisam para viver e, ao mesmo tempo, cuidar da floresta para continuar a viver bem.

O trabalho também aborda os desafios e as perspectivas para garantir qualidade de vida em seus territórios diante das transformações do mundo contemporâneo e do contato com os não indígenas, destacando, por exemplo, a importância dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) e dos Protocolos de Consultas, pois “para os não índios, um documento escrito vale mais que a palavra”. Ressalta ainda o papel das organizações indígenas no fortalecimento da autonomia, da governança e da defesa dos direitos desses povos e termina apresentando o Iepé, seus programas e sua equipe.
A exposição foi inaugurada nesta semana na Universidade Federal do Amapá (Unifap), em Macapá, como parte da programação de dois eventos realizados na instituição, com apoio do Iepé: o XIII Congresso Brasileiro de Direito Socioambiental e o VI Encontro do Observatório de Protocolos Autônomos Comunitários. A mostra, no entanto, tem caráter itinerante e, após sua passagem por Macapá, deverá seguir para o Museu Kuahí dos Povos Indígenas, no Oiapoque, em data ainda a ser definida.
Confira a exposição e saiba mais sobre os modos de vida desses povos abaixo e também na Infoteca do Iepé.
Essa exposição contou com o apoio da Nia Tero Foundation, do Bezos Earth Fund, da Rainforest Foundation Norway e da premiação recebida pelo Iepé na 7ª edição do Jeonju International Awards for Promoting Intangible Cultural Heritage (JIAPICH), realizada em 2025.


